Por Que Robin Williams Se Matou? Análise Do Suicídio

Dia 11 de agosto de 2014 falecia o ator e comediante Robin Williams. Todos ficaram perplexos com a notícia do suicídio, ninguém imaginava que esse seria o fim de alguém que transmitia tanta felicidade. Ao contrário do que muitos pensam, Robin Williams era tímido e introvertido, sua personalidade não o impedia de apresentar uma energia imensa nos palcos de stand-up. Muito intenso, seus sentimentos eram avassaladores, da mesma forma que sentia muita alegria, a tristeza era profunda.

Parece que foi ontem, quando eu assistia Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”, “Hook – A Volta do Capitão Gancho” e “Jumanji”. Depois me deparei com uma atuação carregada de drama em “Amor Além Da Vida”, que me fez pensar em minhas crenças. Foi impossível não me apaixonar pelos ensinamentos do professor de literatura em “Sociedade dos Poetas Mortos”, e ter como inspiração para minha profissão, um exemplo de dedicação e atendimento humanizado, o psiquiatra Oliver Sacks em “Tempo de Despertar”.

A carreira de Robin Williams estourou nos anos 80 e 90, ele marcou a infância de muita gente e foi um dos atores mais renomados que Hollywood já produziu. No ano de 1998, ele ganhou merecidamente a estatueta do Oscar como melhor ator coadjuvante em “Gênio Indomável”. E ao longo de sua carreira, conquistou cinco Globos de Ouro. Era um ator multifacetado, alternava com maestria da comédia ao drama, cativou o público e o respeito dos críticos de cinema. Porém, nada impede que uma pessoa bem sucedida em sua carreira sofra simultaneamente em sua vida pessoal como foi o caso.

O que fazer para continuar? Não surtar, é uma luta sem fim.

Robin Williams

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DO ATOR

Tudo indica que Robin Williams não teve uma infância muito feliz e saudável, ele passava a maior parte do tempo na companhia da babá. Seu pai foi ausente em sua criação, era um grande executivo da empresa Ford e frequentemente viajava a trabalho, e sua mãe era uma ex-modelo descrita pelo filho como uma viciada em moda, entretanto, ela foi uma das influências mais importantes de sua carreira, já que o ator quando criança tentava de todos os modos fazê-la rir como um meio de chamar sua atenção. Ele tinha irmãos, mas foi criado como filho único, estava sempre isolado e brincava sozinho. Passou a infância com medo de ser abandonado e carregou esse medo até os últimos dias de vida.

Muito estudioso, Robin Williams ganhou vários prêmios na escola e era atleta. Sua escola tinha o lema “mente sã, corpo são”, era um ambiente parecido com o do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Podemos dizer que a primeira atuação do ator foi interpretando seu próprio professor de história. Após a mudança para São Francisco, em uma nova escola, dessa vez mais liberal, ele passou a ser mais sociável e depois foi estudar teatro, mas ainda era muito quieto fora dos palcos.

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“Mork & Mindy”

A FAMA E O DECLÍNIO

Robin Williams conquistou a fama interpretando um pequeno personagem chamado Mork na série “Dias Felizes” em 1974, o personagem cresceu e quatro anos depois era lançada a série “Mork & Mindy”. Já no cinema, o primeiro personagem que se destacou foi o marinheiro Popeye, em 1980. Como mencionei anteriormente, Robin Williams era um ator completo, ele conseguia fazer o seu público ir das gargalhadas às lágrimas, foi assim que alcançou o reconhecimento.

Sua capacidade para contar piadas era tão boa que Christopher Reeve (ator de Super-Homem) contou que a primeira pessoa que o fez rir depois que ele ficou tetraplégico havia sido Robin Williams. O ator foi visitar seu amigo no hospital e se passou por um médico russo que queria fazer uma colonoscopia no paciente.

Em Hollywood, ele passou a se drogar. A noite começava num clube de comédia e terminava na casa do traficante. No ano de 1982, muito abalado após testemunhar o falecimento de seu amigo e humorista John Belushi do Saturday Night Live, que sofreu uma overdose de cocaína e não suportou, decidiu então parar com as drogas, mas sofreu recaída e voltou ao vício.

Acostumado a receber muitos elogios, o ator não sabia lidar com críticas, era algo muito massacrante ouvir que seu trabalho não estava agradando o público. Passou um tempo afastado da TV, sem receber nenhum convite de diretores, o que fez deixar a vida tumultuada em Hollywood. Nesse tempo fora dos palcos e das telas, seus filhos nasceram, a família cresceu.

Distante dos holofotes, na sua fazenda californiana, ele voltava ao seu antigo estado quieto e descansou depois de um longo período de trabalho consecutivo, ele havia colocado toda a sua energia na comédia e necessitava do silêncio de sua casa.

A MENTE DE ROBIN WILLIAMS

Robin Williams tinha necessidade de se comunicar, de ser engraçado, ele queria estar sempre diante de uma plateia. Até nos dramas, ele arranjava um jeito de ser comediante durante os bastidores, gostava de provocar o riso nas pessoas e criava piadas com a mesma rapidez de seu pensamento. Ele puxou o bom humor da mãe, mas era sensível e muito intenso como o seu pai.

Qual o seu maior medo? De me tornar enfadonho…

Robin Williams

Na verdade, Robin Williams era quem o outro quisesse que ele fosse. Essa necessidade de ganhar gargalhadas em troca, transparecia sua procura por aceitação. E foi exatamente nesse ponto, que tudo começou à desmoronar.

A mente dele era inquieta, por isso ele não parava, estava sempre fazendo algo, trabalhando ou se exercitando. Seus pensamentos pareciam perturbadores e também possuía baixa autoestima, mesmo expressando uma bela imagem de felicidade e sucesso.

Certa vez, seu irmão declarou que o ator tinha muita dificuldade de se desprender dos personagens, ele integrava pequenas características à sua personalidade e sempre acabava tornando-se de algum modo àquilo que interpretava.

O mais importante é a plateia acompanhar o personagem.

Robin Williams

Ele dava tudo de si, mas não se sentia uma pessoa bem sucedida, era muito auto crítico e rígido consigo mesmo, além de esperar sempre a aprovação do público, essa era sua maior dependência.

Às vezes fico espantado com as besteiras que falo. Meu psicólogo me disse para tomar cuidado com isso. Pois posso estar diante de uma plateia e falar algo que não sei lidar.

Robin Williams

Ele bebia muito durante as gravações dos filmes, sentia medo e vontade de fugir de tudo. Saía esgotado dos shows, era consumido pelo estresse. Seu coração não aguentou e passou por cirurgia para substituição da válvula aórtica, sendo obrigado a desacelerar seu ritmo frenético no ano de 2009.

SEUS ÚLTIMOS MESES DE VIDA

De volta ao trabalho, durante as gravações do seu último filme, “Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba” (2014), o diretor Shawn Levy percebeu como Robin Williams estava mal de saúde. O diretor recebia ligações de noite e de madrugada do ator, questionando sobre a própria atuação, ele estava confuso e se afirmava um merda. Shawn Levy o tranquilizava, dizendo “Você ainda é você. Eu sei disso. O mundo sabe disso. Você só precisa se lembrar disso”.

Vimos que Robin estava lutando de uma maneira que nunca tinha feito para lembrar as falas e combinar as palavras certas com a performance.

Shawn Levy

Lançada em setembro, a série de televisão “The Crazy Ones” era a esperança de Robin Williams, mas a audiência foi um fracasso. Quando a CBS anunciou que não teria a segunda temporada, o ator sendo autocrítico carregou o peso da culpa para si, agravando ainda mais seus sintomas de depressão. Ele também não recebia mais convites para retornar aos palcos de stand-up como esperava. Isso tudo causou um forte sentimento de rejeição

Não era mais uma alma feliz, o ator estava enrijecido, sem emoção, vivia desconfortável, voltou a ficar quieto, não dividia seus problemas, sofria de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), Mal de Parkinson e Demência por Corpos de Lewy, parecia confuso e emotivo, deprimido demais.

Os sintomas de Mal de Parkinson desencadearam ansiedade, inquietação e distúrbio do sono, ele tinha sono agitado e falava dormindo, o que o forçou a dormir em um quarto diferente de sua esposa Susan Schneider, agravando ainda mais seus sintomas depressivos.

Sua deterioração física afetou sua excelente memória, impossibilitando-o que decorasse suas falas. Tinha problemas digestivos e para urinar. Sua voz estava alterando, perdeu peso, seus músculos se paralisavam misteriosamente. Ele se sentia cada vez mais preso ao seu corpo.

Robin Williams estava submerso numa crise que não estava dando conta. Saúde, trabalho, relacionamentos, dinheiro… Tudo indo ladeira abaixo na vida de um homem que havia dedicado 35 anos à sua carreira e, depois dos 60 anos de idade declarou que não sabia mais como fazer a plateia voltar a rir. Mergulhado numa solidão, cheio de problemas, raramente dividia sua dor e angústias com seus amigos, o desespero então foi tomando conta.

Além de todos esses problemas, Robin Williams ainda era dependente químico, ele se sentia cada vez mais isolado, sem saber como parar com sua dependência relacionada ao álcool e cocaína, o que fez recorrer ao centro de desintoxicação Hazelden Foundation Addiction Treatment Center, em busca de um lugar para meditar e encontrar-se consigo mesmo.

ANÁLISE DO SUICÍDIO DE ROBIN WILLIAMS

FATORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA O SUICÍDIO

Antes de tudo, preciso deixar claro os fatores de risco e sinais que servem de alerta para um possível suicídio, são eles: Expressão do desejo de se suicidar; Depressão; Mudança brusca e inexplicável de humor; Esquizofrenia; Estresse social; Contratempos, como a perda do emprego; Dificuldade financeira; Diagnóstico de uma doença incurável; Dores crônicas; Suicídio de um amigo ou parente; Abuso de álcool e outras drogas; Baixa autoestima; Traumas, como abuso sexual; Tentativa anterior de suicídio; Sofrimento em relação à orientação sexual; Dificuldade de enfrentar problemas; Acontecimentos destrutivos, como guerras e grandes conflitos; Perda do companheiro(a); e Falta de apoio social. Até aqui, você já percebeu que Robin Williams carregava alguns desses fatores de risco que agravaram sua depressão, levando ao suicídio.

Robin Williams declarou uma vez que “divorciar-se sai caro”Primeiro, o ator se divorciou de Valerie Velardi após traí-la com a babá Marsha Garces do seu primeiro filho, Zachary Pym Williams. Depois, ele se divorciou de Marsha Garces com quem teve outros dois filhos, Zelda Williams e Cody Williams. Além de ser estressante, todo o processo de divórcio custou caro não apenas para a sua saúde mental, os acordos de divórcio custaram aproximadamente dezenas de milhões de dólares, causando problemas financeiros.

Apesar de uma longa história de depressão grave, a família disse que ele nunca expressou pensamentos ou comportamento suicida. A maioria das pessoas que tentam o suicídio sofre de depressão grave, mas geralmente há uma combinação de fatores que levam ao suicídio como aconteceu com Robin Williams.

O ator aparentemente feliz, sofria de depressão grave, alcoolismo, abuso de drogas, problemas financeiros e de relacionamento, dois divórcios, Demência por Corpos de Lewy e Mal de Parkinson. Seus sintomas, conforme descritos em um exame médico, mencionam paranoia e alucinações, o que apontam para uma possibilidade de psicose aguda, embora este diagnóstico não tenha sido confirmado.

Relatórios toxicológicos confirmaram antidepressivos, cafeína e Levodopa em seu corpo, mas em níveis de dose terapêutica, indicando que ele não teve nenhuma overdose medicamentosa. O ator tinha 63 anos, estava sóbrio e morreu por asfixia sem sinais de luta, ele se enforcou com um cinto, e não foi encontrada nenhuma carta de suicídio.

Segundo os relatórios da polícia, o ator e comediante pesquisou na internet outros meios de pôr fim a sua vida e até mesmo cortou seu pulso esquerdo, mas se arrependeu. Ele lutava contra uma depressão severa e já havia sido internado várias vezes em clínicas de reabilitação, por problemas com drogas como a cocaína. O suicídio de Robin Williams (e de outras celebridades antes dele) é um exemplo de como pessoas bem sucedidas não são imunes a impulsos suicidas.

SUICÍDIO POR IMPULSO DE IMITAÇÃO

O suicídio de Robin Williams provocou muita repercussão, causando o efeito contagioso por impulso de imitação, ou seja, aqueles que tinham o ator como referência de sucesso e felicidade, passam a pensar que se ele não suportou o sofrimento, não serão eles que aguentarão uma fase insuportável que parece não ter fim, aí começam as tentativas e o consequente aumento de suicídios. 

Sempre que uma celebridade resolve tirar a própria vida, ocorre um crescimento de 10% na taxa de suicídios. Pessoas que a admiravam resolvem ter o mesmo fim quando estão com depressão grave cinco meses após noticiado o suicídio. Autoridades de saúde pública reconhecem que há uma ligação e que existe sim esse risco. Um dos fatores que influenciam é a exposição excessiva e irresponsável na mídia, outro risco potencial é o afeto e identificação que a pessoa possui com o suicida.

Em geral, as pessoas imaginam que se resolvessem determinados problemas, logo seriam mais felizes. Se tivessem mais amor, dinheiro e sucesso, lidariam melhor com a vida. Quando elas percebem que esse otimismo condicionado é falso, se torna devastador, pois a pessoa deprimida pode alcançar algo desejado e ainda sim, se sentir infeliz. A felicidade não é um bem adquirido, você não se sentirá mais feliz sendo prisioneiro de sua própria mente e da solidão que convive em você. Por isso que a psicoterapia é indispensável. 

Último trabalho de Robin Williams: série "The Crazy Ones"
Último trabalho de Robin Williams: série “The Crazy Ones”

A DEPRESSÃO EM PESSOAS CRIATIVAS E TALENTOSAS

O fato é que Robin Williams lutou contra seus demônios durante muitos anos, ele tinha vários problemas de saúde mental e física. Fazia o mundo rir enquanto sofria em sua vida privada. Assim como o ator, curiosamente, muitos comediantes sofrem de depressão ou mesmo se suicidam. Difícil de imaginar, mas os comediantes podem ser bastantes introvertidos e depressivos, a comédia é uma alternativa que eles encontram para lidar com o lado sombra. 

As pessoas mais tristes estão sempre tentando fazer as outras se sentirem mais felizes, porque elas sabem como é se sentirem absolutamente sem valor e não querem que ninguém sinta o mesmo.

Robin Williams

Pessoas criativas desejam mudar o mundo de alguma forma através da arte e sofrem muito quando não conseguem ou não são reconhecidas.

Pessoas perfeccionistas se esforçam o tempo todo para atingir metas quase impossíveis. Essa capacidade de dar o melhor e o máximo que conseguem, que as levam ao sucesso, porém quando não conseguem alcançar o ideal que buscam e prezam, elas se frustram na mesma proporção.

Geralmente, celebridades possuem uma necessidade de serem amadas por todos a todo momento, elas desejam a plateia e sua aprovação para continuar em destaque, mas nenhum dependente de admiração nunca irá se satisfazer e achar que possui amor o suficiente, provocando o sentimento de rejeição.

O brilhantismo, a inteligência e criatividade em alguma atividade, despertam a admiração nos outros e ao mesmo tempo é muito isolador. Pessoas talentosas e aplaudidas podem se sentir assustadoramente solitárias.

Alguns descreviam Robin Williams como uma luz que nunca se apaga, mas essa luz se apagou muito antes que todos esperavam, de forma trágica e solitária. O ator que era amado por muitos fãs e por sua família, mesmo estando cercado de pessoas, se viu só e se foi só numa segunda-feira dia 11 de agosto de 2014, em sua casa em Tiburon, Paradise Cay, Califórnia. Suas cinzas foram jogadas na baía de São Francisco, a pedido de Robin Williams.

Eu sempre achei que a pior coisa da vida era chegar ao fim dela sozinho. Hoje sei que, na realidade, a pior coisa é terminar a vida cercado de pessoas que fazem você se sentir sozinho.

Robin Williams

Artista Sebastian Lanzara
Artista Sebastian Lanzara

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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