Trauma: A Vida Dos Soldados No Pós-Guerra - psicologia, arte & cultura Melkberg - ataque - combatentes - forças armadas - guerra - matar - psicológico - soldados - TEPT - transtorno de estresse pós-traumático - trauma - vida

Trauma: A Vida Dos Soldados No Pós-Guerra

Antigamente o trauma não era associado como fator determinante para o adoecimento. Os pacientes traumatizados eram vistos como neuróticos, deprimidos ou até simuladores. Entretanto, após a sucessão dos relatos de ex-veteranos de guerra, estudos se iniciaram, reconhecendo a relação dos fatores traumáticos na formação da psicopatologia.

Ao longo da história, o TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) foi denominado como “Coração de soldado” na Guerra Civil Americana, “Choque de granadas” na Primeira Guerra Mundial e “Neurose de combate” na Segunda Guerra Mundial, envolvendo combatentes, sobreviventes dos campos de concentração e das bombas atômicas do Japão.

Você já parou para pensar quantos anos os EUA esteve em guerra? Se consideramos apenas a última, as forças armadas dos EUA invadiram o Afeganistão após o ataque terrorista em 2001, o que totaliza 20 anos em conflito. Imagine a tensão dos jovens combatentes. Qual o reflexo da guerra na mente humana? Qualquer pessoa é capaz de matar alguém? Esses são alguns dos questionamentos que podem ser levantados e serão respondidos neste último post sobre TEPT na guerra.

Um estudo financiado pelo Ministério da Defesa da Noruega e realizado pelos Serviços Médicos das Forças Armadas da Noruega, constatou que soldados testemunhas de cenas de sofrimento e morte sem estarem em perigo ou soldados que mataram alguém inocente, violando os princípios morais, desenvolveram o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), eles passaram a valorizar menos a vida, se isolaram mais e tiveram menos auto confiança. Já os feridos por tiros e expostos a situações que envolviam risco de vida direto, apresentavam menos problemas psicológicos. Por sobreviverem a um ataque, eles passaram a valorizar a vida, se aproximando mais da família e experimentando maior confiança na própria capacidade de lidar com situações adversas.

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O QUE NÃO MATA FORTALECE?

Prefiro substituir o que não te mata fortalece por o que não te mata pode revelar a sua força. Mesmo sendo testemunhas das maiores atrocidades que o ser humano pode fazer em nome do poder, os sobreviventes do holocausto, por exemplo, experimentaram a fome, a violência física e moral, a retirada da liberdade, o assassinato dos seus entes queridos e mesmo sobrevivendo ao terror conseguiram (alguns) alcançar uma vida produtiva.

APRENDENDO A MATAR

Para o filósofo político norte-americano, Michael Walzer, a guerra é, em certas circunstâncias, necessária, entretanto as condições para o combate e sua conduta estão sujeitas a fortes limitações morais e éticas.

Em tempos remotos os generais formavam seus batalhões recolhendo cidadãos comuns por onde passavam, eles se tornavam soldados de uma única guerra, ao sobreviverem retornavam para suas casas e antiga rotina. Atualmente a ideia é criar soldados profissionais, que não hesitem quando chega a hora de puxar o gatilho. Usando as técnicas mais eficientes de condicionamento psicológico e controle mental, como uma “lavagem cerebral”, o treinamento militar pega qualquer pessoa e transforma digamos em uma “máquina de matar”, capaz de blindar todas as emoções para não resistir, não pensar se mata ou não e atirar sem colocar a sua vida em risco.

Os recrutas superam como o autor Dave Grossman chama de “fobia humana universal”: a aversão que a maioria das pessoas tem de tirar a vida das outras, ausente em somente 2% dos os indivíduos dentro das Forças Armadas nos EUA. O Exército dos EUA cria combatentes infalíveis, todavia é ineficaz para evitar os danos psicológicos neles resultantes da tarefa de matar em que são tão bons.

O PÓS-GUERRA

As consequências da guerra permanecem na mente muito tempo depois do último tiro. O principal problema psicológico que aflige os ex-combatentes é o transtorno de estresse pós-traumático. As principais manifestações clínicas do TEPT, são: reexperiência dolorosa do trauma, padrão de evitação e de abafamento emocional e uma hipervigilância quase constante, sentimentos de culpa, rejeição e humilhação. As respostas fisiológicas são semelhantes ao ataque de pânico: taquicardia, sudorese intensa, ondas de frio ou de calor, sensação de desmaio, falta de ar e etc.

ETERNAMENTE NO FRONT

O sujeito segue pensando na guerra da qual voltou, querendo ajudar os combatentes e matar seus inimigos. O tempo parece pausado. A vítima e sobrevivente ao trauma de guerra relembra os piores eventos através de recordações inesperadas em flashbacks e pesadelos. Cada vez que as situações são revividas, o indivíduo fica mentalmente e fisicamente exaurido. A ansiedade, paranoia e frustração aumentam e ele gradualmente vai perdendo o autocontrole, é como se sua vida fosse organizada em torno do trauma. O trabalho, as relações familiares e a saúde começam a entrar num processo de deteriorização devido ao trauma de guerra.

SUICÍDIO

Muitos veteranos se revoltam e sentem-se traídos por Deus e desvalorizados pela sociedade. Ao longo do tempo, vemos que os ex-combatentes não recebiam assistência nenhuma no pós-guerra, sem tratamento psicológico, se sentindo deslocados, desorientados e com problemas físicos, ainda tiveram que enfrentar o desemprego.

Com aversão ao contato social, falta de ânimo para interagir com outras pessoas, muitas vezes o uso de drogas é utilizado na tentativa de atenuar o trauma e seus efeitos. Invadido por pensamentos como “Por que não eu?” ao lembrar dos companheiros mortos na guerra, simultaneamente surge a culpa por sobreviver. A soma de todos esses fatores mais os sintomas do transtornos de estresse pós-traumático, pode levar a uma atitude extrema e brutal como o suicídio.

A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam.

Erich Hartman

SUGESTÃO DE FILME: NASCIDO PARA MATAR (1987), de Stanley Kubrick

A série de posts sobre TEPT acaba por aqui. Obrigada por ler! Comente se gostou e compartilhe o conteúdo.

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