Análise Psicanalítica: A Garota Dinamarquesa - arte, cultura & psicologia Melkberg - Einar - A Garota Dinamarquesa - Einar Wegener - Lili Elbe - século XX - Lili - Gerda - mulher - corpo - cirurgia - gênero

Análise Psicanalítica: A Garota Dinamarquesa

Filme de Tom Hooper “A Garota Dinamarquesa” (2015) é uma adaptação do romance “A Moça de Copenhague” do escritor americano David Eberhoff que se inspirou nas anotações do diário de Einar Wegener/Lili Elbe onde expressou toda sua aflição e seu complexo mundo interior, a discriminação que sentiu ao ser tratado como um pervertido por ser fora do padrão e vítima da ignorância. Realmente nascemos homem ou mulher, ou, como diz Carl Jung “a pessoa masculina e feminina, não é só homem ou só mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é.”.

Einar Wegener foi uma artista que viveu no século XX como uma das primeiras pessoas que se submeteu a uma cirurgia de redesignação sexual. Logo ao nascer, perdeu sua mãe no parto, sendo criado pela avó paterna e um pai portador de doenças raras. Quando criança, ele se vestia com as roupas femininas que sobraram da mãe falecida. Aos oito anos de idade, seu pai o flagrou e proibiu que continuasse com esse hábito.

Deve ser triste olhar para o seu corpo no espelho e não se reconhecer. Einar Wegener tinha a sua imagem de homem refletida, porém sua essência era feminina, o que impossibilitava a identificação com o gênero que foi atribuído ao nascer. Ele deseja dar voz, liberdade, corpo e vida à mulher que ali habita.

Um jovem pintor muito talentoso e introvertido, que se sentia limitado, preso. As pinturas de Einar Wegener carregavam um enigma pessoal, algo escapava às palavras e somente através da arte era possível dar vazão aos tormentos. Antes de se casar com Gerda, ele fora seu professor de arte na Dinamarca. Por ser tímido, Gerda teve que ter a iniciativa de se aproximar e ao beijá-lo sentiu a estranha sensação de beijar a si mesma, foi assim que se apaixonou por ele.

Gerda recebia críticas constantes em relação ao seu trabalho, ela retratava mulheres, mas suas pinturas não diziam nada além dos corpos estáticos sob as telas. No começo dos anos 20, já casada com Einar, tudo ia bem, até o dia em que uma de suas modelos faltou, Gerda então pediu para que o marido posasse para ela, usando as meias e sapato de Ana (a modelo ausente). À princípio ele se sentiu desconfortável nessa situação, uma mistura de prazer e medo. A esposa o encorajou a não pensar tanto no que as pessoas achariam disso e relaxa-se.

Gerda: Há algo que você gostaria de me dizer?

Einar: Há algo que você gostaria de saber?

Gerda: Sou sua esposa, sei de tudo.

No momento que Gerda solicita que o marido use um vestido, ela o chama de “Lili”. Sem perceber, desperta Lili Elbe, uma mulher que estava reprimida, adormecida dentro dele há muitos anos. Como duas pessoas num só corpo. O marido torna-se sua musa inspiradora, uma garota dinamarquesa de cabelos ruivos, olhos azuis e uma beleza perturbadora, tocando assim em memórias inconscientes e confusas que habitavam na mente do artista, afrouxando suas resistências e ajudando-o a descobrir uma verdade sobre a sua alma inconformada com o corpo em que habitava. Juntos, eles deram vida a uma personagem que sempre esteve entre eles.

Após tal revelação, aos poucos o casal se distanciou. Gerda Wegener não trocou mais olhares com Einar, pois agora havia Lili, muito menos ela conseguiu engravidar como desejava. Ao incorporar Lili Elbe, Einar ficou submerso num funcionamento prazeroso, que caracteriza propriamente o Princípio do Prazer, ele se negou a parar e saiu desesperadamente à procura de um tratamento e cirurgia para tornar-se mulher.

Einer não podia mais esconder Lili, tornando nítida a amargura de estar preso ao corpo com o qual não se identificava. Na tentativa de resolver e entender o que estava acontecendo, o casal recorreu à medicina. É possível notar a angústia neles ao ouvir patologizações, enquadramentos, diagnósticos como homossexualidade, esquizofrenia, delírio e etc.

No início dos anos 30, as cirurgias de redesignação sexual eram feitas pelo Instituto Alemão de Ciências Sexuais (em Berlim) onde eram também realizadas pesquisas relacionadas à gênero e sexualidade, comandadas pelo sexólogo Magnus Hirschfeld. Sempre com o apoio de Gerda, Lili Elbe passou pelo procedimento de retirada dos testículos, do pênis e outras operações feitas pelo cirurgião Kurt Warnekros, que segundo ela, teria a salvado e a criado novamente. Contudo, logo o caso virou notícia na Dinamarca e na Alemanha. Como represália, o tribunal dinamarquês invalidou o casamento, pois a união entre duas mulheres não era permitida na época. Após o fim da união matrimonial, Einar conseguiu alterar seu nome em diversos documentos.

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“A Garota Dinamarquesa” não aborda apenas o tema transexualidade, trata-se da história de um homem que diz ter uma mulher dentro de si e que, aos poucos se transforma, inicialmente através dos gestos, roupas, depois a tão sonhada cirurgia de mudança de sexo e por fim ocorre a passagem da morte.

Ontem à noite… Tive o sonho mais lindo. Sonhei que era um bebê nos braço da minha mãe. Ela me olhava.. E me chamava de Lili.

Os “tratamentos” oferecidos não auxiliaram em nada, somente fizeram aumentar a “dor de ser”. A visita a vários psiquiatras, fez confirmar a solução que já existia, Lili era real e só lhe faltava um corpo de mulher.

No século XX, os chamados “desvios sexuais” eram tratados como casos de perversão ou mesmo esquizofrenia. A ciência da época não considerava que o corpo pudesse não impor o gênero. O aprisionamento a um corpo em discordância com a percepção psíquica de gênero parecia ser o destino. O sofrimento descrito por alguém que viveu essa experiência era com certeza enorme. A ciência necessitava classificar algo desconhecido. Não era possível Einar Wegener expressar seu mundo interior, com seus segredos, sem ter que antes enfrentar uma sociedade que impõe regras, psicopatologizando qualquer comportamento que não se define como “normal”.

Ainda no século XX, Sigmund Freud começou a tratar do tema da sexualidade e afirmava que todos, homens e mulheres, no início de suas vidas, teriam uma predisposição bissexual. O feminino e o masculino estariam presentes no mesmo sujeito e depois um lado sofreria maior recalque, fazendo com que o feminino ou o masculino tomasse maior livre curso. Mas no nível da fantasia, Freud considerava que o feminino e o masculino poderiam conviver com relativa tranquilidade, sem produzir maiores ruídos adoecedores. Entretanto, não foi possível “fazer de conta” para Einar, a fantasia não era suficiente para solucionar seu conflito. A mudança de sexo precisou ser realizada. 

Ao analisarmos a trajetória de Lili Elbe na vanguarda de um movimento em prol dos direitos civis, da igualdade e dignidade humana para todas as pessoas, percebemos como foi essencial o amor incondicional de Gerda para tornar o processo de auto identidade do marido um pouco menos doloroso. Observamos também o quanto pode ser complexa a tarefa de amar. Gerda deixou seu papel de mulher para ser exatamente o que o marido precisava, alguém que o apoiasse, o amasse e o compreende-se sem julgamentos ou preconceitos. Ela permaneceu ao lado dele durante todos os momentos até a cirurgia, abrindo mão de um casamento, do homem que amava para tornar um sonho possível.

Einar sentia-se solitário, e ficou imaginando se alguém no mundo chegaria a conhecê-lo de verdade um dia.

A Garota Dinamarquesa

O filme “A Garota Dinamarquesa” está disponível na Netflix. Já assistiu? Gostou?

3 comentários em “Análise Psicanalítica: A Garota Dinamarquesa”

    1. Há diferentes interpretações dentro da psicanálise sobre o sentido da transexualidade e da homossexualidade. Eu acredito que possa separar “eu sou” (plano das identificações como a transexualidade) do “eu desejo” (a opção de objeto mais do que de identidade de gênero, o desejo sexual como a homossexualidade). O filme não deixa clara a vida sexual de Lili, apenas mostra que depois de assumida, ela passa a ser mais desinibida e inclusive seduz seu amigo Hans Axgil. Contudo é nítido que Gerda não tem mais relação sexual com o marido, pois ele diz que machucaria Lili. Em meio à crise conjugal, Gerda questiona se ele havia tido relações com Henrik Sandahl (o rapaz que beijou Lili), e Lili responde que não precisava se preocupar, pois Henrik era homossexual.

      Deixando para trás seu velho eu, como o afastamento das atividades artísticas, pois fazia parte de um tempo passado, reprimido, em que não conseguia expressar Lili, não houve mais a vontade de reencontrar Einar. O maior destaque na narrativa do filme foi realmente o processo de Einar para assumir sua identidade de gênero, deixando nas entrelinhas sua orientação sexual e as descobertas no plano da sexualidade.

      Curtido por 2 pessoas

  1. Agradeço sua explicação.
    Eu vivi um tempo em que aprendi que nascemos com a nossa orientação sexual definida, mas agora alguns psicólogos e psiquiatras defendem que a orientação sexual pode mudar. Já não entendo nada. Entendo que se esconda e se assuma, mas mudar é uma novidade.

    Curtido por 2 pessoas

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