Gênio Louco? Criatividade, Genialidade e Loucura

Desde o tempo do grande filósofo Aristóteles, acreditava-se que existia uma relação entre o gênio criativo e a loucura, e ambos eram considerados obra da natureza. Em “Problemata XXX”, o filósofo aponta que todo homem das áreas da Filosofia, Política, Poesia e Arte, será um melancólico, pois sofre de uma manifestação patológica, cuja origem é o excesso de bile negra. Assim, extremos de humor, pensamento e comportamento, incluindo a conduta psicótica, têm sido associados à criatividade artística.

“Muitas pessoas já me caracterizaram como louco. Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência”, escreveu certa vez Edgar Allan Poe. O escritor americano não era o único a pensar sobre a relação entre genialidade e loucura. Muito antes, o filósofo Platão acreditava em uma espécie de “loucura divina” como base fundamental de toda criatividade.

Curiosamente, os introvertidos e introspectivos foram em maior número, os responsáveis pelas melhores invenções e realizações da história da humanidade. Albert Einstein dizia que “a monotonia e a solidão da vida tranquila estimulam a mente criativa”. O físico de renome mundial tinha suas melhores ideias quando estava só.

Os introvertidos têm um grau elevado de atividade cerebral e, portanto, são cronicamente mais estimulados pelo córtex do que os extrovertidos.

Hans J. Eysenck

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A Anunciação (1472-1475)

A Relação entre Genialidade e Loucura

Genialidade é a capacidade de perceber relações onde as pessoas comuns não percebem.

William James

No ano de 1909, o psicólogo britânico Havelock Ellis estudou pacientes psicóticos e pessoas criativas, visando estabelecer uma ligação entre eles. Após setenta anos, o psicólogo alemão Hans Eysenck chegou a conclusão de que não era a psicose (insanidade total) que estava vinculada à genialidade, e sim o psicoticismo, definido por ele como uma predisposição ao desenvolvimento de sintomas psicóticos.

Basicamente sua teoria afirma o seguinte: A capacidade de ter pensamentos abrangentes demais é um potencial para gerar ideias originais, inovadoras e criativas. Quando essa capacidade está alinhada a um QI (quociente de inteligência) de 165 ou mais poderíamos estar falando de um gênio. Porém, quando essa capacidade está alinhada a sintomas psicóticos pode produzir um louco.

Hans Eysenck também descobriu que vários traços de personalidade se associavam para o produzir o psicoticismo. Pessoas mais agressivas, egocêntricas, distantes, impulsivas, insensíveis, criativas, teimosas e antissociais tinham maior predisposição para a psicose.

O gênio matemático, John Forbes Nash, era esquizofrênico paranoide. Ele acreditava que os aliens o recrutaram para salvar o mundo. Sobre isso, Forbes disse: “As minhas ideias sobrenaturais vieram da mesma maneira que as matemáticas. Por isso, decidi levar as duas igualmente a sério”.

A relação entre a genialidade e a loucura está na desinibição cognitiva: a tendência de prestar atenção a coisas que normalmente seriam ignoradas. No entanto, a desinibição cognitiva é associada aos transtornos da mente. Os esquizofrênicos (psicóticos), por exemplo, acabam se bombardeando com informações que talvez pudessem ser “filtradas”.

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Mona Lisa (1503 – 1506)

Criatividade e as Ideias do Gênio Louco

Durante muitos anos a criatividade esteve relacionada à psicopatologia. Van Gogh, Virginia Woolf e Ernest Hemingway são exemplos de talentos geniais e criativos que sofriam de transtornos psiquiátricos.

Geralmente, pessoas que apresentam bom desempenho nos testes de inteligência também obtém bom resultado nos testes de criatividade. Pense em quantos usos você é capaz de fazer para um tijolo… Quanto mais ideias, imagens e frases nós temos para trabalhar, derivadas de nosso aprendizado acumulado, mais chances nós temos de combinar esses tijolos mentais de novas formas.

A genialidade é considerada o ponto mais alto de criatividade, não basta ter um QI elevado, é preciso apresentar um processo de busca mental, combinando ideias diferentes capazes de gerar novas respostas para um problema ou criar meios alternativos de fazer algo já existente. Para encontrar soluções ou inovar, gênios criativos caminham entre o “normal” e o “anormal”.

O estereótipo de “gênio louco” sempre esteve presente, de modo que se reconheça que “insanidade” pode gerar “originalidade”. Para muitos estudiosos, o pintor holandês Hieronymus Bosch é considerado psicótico, supostamente as imagens fantásticas de suas gravuras eram criações oriundas de suas alucinações. O fato é que portadores de transtornos mentais com frequência trabalham em áreas criativas, porque a atividade artística os ajuda a proteger a própria mente da destruição.

Pessoas demasiadamente criativas são por vezes taxadas de loucas, mesmo estando em um ambiente no qual é estimulado o pensamento livre, aberto ao novo. As ideias mais inusitadas e originais, o “pensar fora da caixa”, assusta as pessoas, causando uma sensação de estranhamento. A criatividade é uma benção e ao mesmo tempo pode ser uma maldição, não é porque você possui uma mente criativa que será valorizado.

Mentes inquietas desejam transformar o mundo e, apesar de mais de 90% dos projetos falharem, há “loucos” (ou gênios) que continuam a tentar. Essa persistência e o aprender através do erro que nos permite hoje simplesmente acender uma lâmpada, por exemplo. Se antigamente, pensássemos que o gesto de deslizar o dedo numa tela transformaria a forma como interagimos com o mundo, seríamos provavelmente chamados de loucos. Foi imaginando e colocando em prática uma ideia visionária que Steve Jobs criou uma revolução digital. Não basta ser um gênio criativo, é necessário produzir constantemente, trabalhar duro, estudar e não desistir diante dos primeiros erros.

Muitos gênios considerados hereges por interferir nas manifestações divinas e serem uma ameaça às doutrinas da Igreja Católica defenderam suas ideias, mesmo sendo julgados ou perseguidos e correndo o risco de serem torturados, mortos pelo conservadorismo da instituição religiosa. Exemplos de coragem como Nicolau Copérnico e seu defensor Galileu Galilei mudaram a História do mundo, a partir de suas descobertas astronômicas e inspiraram outros gênios como Isaac Newton.

Para mim, Leonardo da Vinci (1452-1519) foi uma das mentes mais geniais que o mundo já teve. Apesar de ser mais conhecido pelas suas pinturas e pela famosa imagem da moça com o sorriso misterioso apelidada de Mona Lisa ou La Gioconda, o pintor italiano renascentista também exercia de forma excepcional diferentes atividades como cientista, arquiteto, escultor, matemático, anatomista, inventor, engenheiro, botânico, poeta e músico.

Pintura em destaque – “Tavola Lucana” (1505) foi descoberta em dezembro de 2008, na coleção privada herdada por um nobre da província de Salerno. A obra era classificada como um autorretrato de Galileu Galilei, mas diversos estudiosos concluíram que era a imagem de Leonardo Da Vinci.

Agora divida conosco… Qual o primeiro gênio que vem à sua mente?

13 comentários sobre “Gênio Louco? Criatividade, Genialidade e Loucura

  1. Cíntia, concordo com o “estevamweb”, e acrescento que é um texto leve, embora traga um tema tão forte. Particularmente, a leitura me deixou em paz comigo mesmo, pois sempre me preocupei com a “maluquice” que às vezes os que me conhecem creditam a mim, rss.

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  2. Olá Cintia. Leciono num Colégio Particular de Belo Horizonte, Colégio Santo Antônio, para a 2ª e 3ª série do Ensino Médio, e também no Ensino Fundamental de uma escola pública..
    Meu primeiro livro de filosofai está em fase de lançamento. A live de lançamento será pelo instagram no dia 24/02 às 18h. Se puder assistir será um prazer. Será pelo @estevammatiazzi e/ou @brazilpublishing
    Se me permitir depois lhe envio os links para você dar uma olhada se lhe interessa e, se possível , ajudar a divulgar.
    O título é Alteridade e Sentido Ético da Religião na Filosofia de Emmanuel Lévinas.
    Em euros pela Amazon, o livro impresso deve sair por uns 12 euros, O e-book, por uns 5 euros.
    Fraterno abraço.
    Estevam

    Curtido por 1 pessoa

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