Resenha Filosófica: Claraboia, de José Saramago

Claraboia não é o livro mais conhecido de Saramago, no entanto, se eu puder aconselhar alguém que queria conhecer a vasta obra literária desse escritor, indico Claraboia, um dos primeiros livros escritos por ele e surpreendentemente, foi um dos últimos a ser publicado. O motivo da minha indicação, se dá pelo único fato, Claraboia quando foi escrito, ainda não continha o estilo tão característico de Saramago, isto é, não possui uma narrativa com longos parágrafos e pouca pontuação. Portanto, essa leitura será mais tranquila e ideal para quem pretende assim como eu, ler mais livros desse grande autor.

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Resenha Filosófica: Claraboia, De José Saramago

Toda estória contida em Claraboia se passa em um sobrado, por trás das paredes, as falas dos vizinhos ganham vida e os pensamentos, imaginação. Fofocas e a famosa “pulga atrás da orelha” para descobrir o que acontece dentro daquelas casas, circulam durante toda leitura. O interesse na vida alheia, especulações e os questionamentos sobre as suas próprias vidas nas conversas externas e internas (na mente), já nos dizem sobre o quê o livro se trata.

Tenho a sensação de que a vida está por detrás de uma cortina, a rir às gargalhadas dos nossos esforços para conhecê-la. Eu quero conhecê-la.

O cotidiano de qualquer um, que passa todos os dias em nossa frente, mas não sabemos nada a seu respeito. O outro será então, explorado por Saramago. Muitos momentos, me senti como uma criança ao ler essa estória, como se estivesse diante da fechadura das portas, ouvindo e imaginando coisas além da realidade. E o que mais pude perceber, é que a vida não precisa ser espetacular em tudo e, que também não preciso sempre encontrar sentido nos fatos, pois não é isso que dá o caráter de que a vida vale a pena ser vivida, ela é simplesmente o que nos apresenta e nada mais.

A poesia é, talvez, como uma fonte que corre, é como a água que nasce da montanha, simples e natural, gratuita em si mesma. A sede está nos homens, a necessidade está nos homens, e é só porque elas existem que a água deixa de ser desinteressada.

Desse modo, iremos acompanhar muitos personagens e em sua maioria, nos remetem à pessoas que já passaram e passam todos os dias por nós. Elas aparecem, por exemplo, quando estamos vivendo sob o mesmo teto e se acham no direito de se intrometer na vida alheia como a tia Amélia e o pai de Claudinha, procurando por segredos em um diário ou perseguindo os passos às escondidas, vigiando uma vida para encontrar sentido em sua própria.

Todos nos encontramos no infinito, no infinito da estupidez, da apatia, do marasmo.

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Essa vida, que já foi discutida pelo filósofo Albert Camus. Ele dizia que a vida só vale a pena ser vivida, quando paramos de procurar explicação para tudo e deixamos ela nos levar, porque o mundo não tem consciência, somente nós humanos somos seres conscientes, o que existe em nossa mente não existe para o universo. Sendo assim, estaremos vivendo erroneamente ao esperar muito dela.

A vida deve ser interessada, interessada a toda hora, projetando-se para lá e para além. Assistir é nada. Presenciar é estar morto. Era o que ele queria dizer. Não importa que se fique cá e aquém, o que é preciso é que a vida se projete, que não seja um simples fluir animal, inconsciente como o fluir da água na fonte. Mas projetar-se como? Projetar-se para onde? Como e para onde, eis o problema que gera mil problemas.

Postura muito criticada como sendo pessimista, porque isso diminui nossa percepção de que somos especiais como acreditamos, não é à toa que o ser humano é muito vaidoso. Passamos anos realizando tarefas essencialmente sem sentido, numa luta infinita e se aceitarmos a contradição da vida e a falta de sentido na existência, viveremos mais livremente.

Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste.

Julgando nossas vidas como sem graça, há aqueles que resolvem jogar tudo para o alto e procurar novas emoções, a verdade é que com o passar dos dias, a monotonia afeta a todos, principalmente, quem precisa trabalhar para curtir, quem necessita do dinheiro que não cai em nossas mãos para se distrair, ou seja, a maioria da população senti os efeitos da rotina e querem fugir dela como se estivessem fugindo também daqueles ao seu redor. Foi essa a experiência que Emílio teve ao se “livrar” da esposa e do filho e esperar que uma magia acontecesse e que tudo se desaparecesse, mas só restou ele e seus pensamentos. Ou então, estrangeiros que deixam seu país de origem e esperam o melhor, mas as dificuldades aparecem e ameaçam seus sonhos, como aconteceu no casamento da espanhola Carmem. Às vezes, eles estão apenas querendo fugir deles mesmos.

Descobriu que tendo desejado tanto a liberdade, não sabia agora como gozá-la completamente.

Filhos (Abel e Emílio) que saem de seus lares, porque resolvem seguir seus próprios passos, vivendo sós ou casados, mas que ao casarem também se sentem sós. Filhos (Adriana e Isaura) que permanecem em casa, ansiando, temendo e lutando por novos passos. Filhos (Matilde) que saem de casa depois de saírem de suas próprias vidas, levados pela morte, numa direção oposta à esperada, e seus pais (Justina e Caetano) são testemunhas dessa lamentável realidade, sendo obrigados a conviverem com isso e entre eles, que não se reconhecem mais, dia após dia.

Por isso, entre ambos, o silêncio era a regra e a palavra a exceção. Por isso, nada mais que sentimentos gelados e olhos distantes preenchiam o vácuo das horas passadas em comum. E o cheiro a bafio que inundava a casa, aquela atmosfera de subterrâneo, era como o cheiro dos túmulos abandonados.

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Dificuldades de casamento, de relacionamento. Discussão, rompimento, agressão, falta de respeito e admiração que acabam com qualquer resto de amor que sobreviveu todos os dias da rotina. Depressão, falta de grana, decepções, sabotagem, submissão por dinheiro, rivalidade entre mãe e filha, machismo, vaidade, frustrações, desprezo, traição, perdas, vingança, ingratidão, diferenças culturais, preconceito de quem resolve levar a vida como bem entende e contraria os costumes tradicionais das famílias. Por muitos momentos, a vida pode se apresentará como sem graça ou uma desgraça e serão nesses momentos que os vizinhos se apresentam, eles que são os personagens de Claraboia e da vida como ela é.

Não gostava da mãe porque sabia que ela não a amava como filha. Várias vezes pensara em afastá-la. Não o fazia porque temia cenas desagradáveis. Pagava a sua tranquilidade por um preço que, embora alto considerado em si mesmo, não era excessivo para o que lhe proporcionava. Duas vezes por mês tinha de receber a visita da mãe, e habituar-se. As moscas também importunavam e, no entanto, não há nada a fazer senão habituarmo-nos a elas…

A identificação com pelos menos um personagem é inevitável em Claraboia. Porém, o personagem que mais me chamou a atenção, não foi o mais próximo de mim, ele foi o mais distante da minha realidade, posso até dizer que foi ele quem mais me incomodou, talvez por sua vida parecer um constante incômodo. Abel, ele que era inquilino de Silvestre, um simples sapateiro com muitas histórias de vida. O inquilino chegou em silêncio e causou confusão e reviravoltas. Nunca parecia estar em paz consigo mesmo e com o lugar onde morava, não se sentia pertencido à nada e, nem queria pertencer, pois quando começava a gostar de alguém e acostumar-se com um lugar, ele cortava os tentáculos como dizia e sumia.

A angústia apertava-lhe a garganta: era ela que não lhe permitia falar, que o obrigava a retirar-se, como alguém que se esconde para morrer ou para chorar.

José Saramago diz muito através de objetos inanimados das casas e dos fenômenos naturais que cercam todo o cenário, utilizando uma linguagem poética e bonita, é claro. Além disso, o silêncio sempre paira pelos cômodos das casas e entre os personagens, por falta de sintonia, desprezo, raiva contida ou por uma simples discordância num começo de briga que cresce dentro do silêncio para calar opiniões divergentes.

O tempo fluir lentamente. O tique-taque do relógio empurrava o silêncio, insistia em quer afastá-lo, mas o silêncio opunha-lhe a sua massa espessa e pesada, onde todos os sons se afogavam. Sem desfalecimento, um e outro lutavam, o som com a obstinação do desespero e a certeza da morte, o silêncio com o desdém da eternidade.

Esse livro atingirá de forma singular e única cada leitor. Uma excelente sugestão de presente. A grandeza das palavras de Saramago em seu texto poético e desafiador, fez Claraboia entrar para minha lista de favoritos, pois é belo sem deixar de fora em nenhum instante, a realidade. Uma verdadeira obra-prima, tive de me controlar para não colocar todos os trechos mais bonitos, pois foram muitos.

(…) Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera.

Era uma criança, bem sei, sentia e pensava como criança. Mais tarde, comecei a ver que me roubavam as esperanças.

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I.S.B.N: 9788535919837
Páginas: 384
Editora: Companhia Das Letras
Autor: José Saramago

Você já leu “Claraboia”? Se gosta de Saramago, me diga qual livro é o seu favorito…

4 comentários sobre “Resenha Filosófica: Claraboia, de José Saramago

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