Biografia da escritora e enfermeira de guerra, Vera Brittain

Descobri quem foi Vera Brittain através de “Juventudes Roubadas”, um filme forte e poético como ela. Desde então, Vera Brittain tornou-se minha inspiração e tenho certeza que você também irá admirá-la.

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Biografia

Vinte e nove de dezembro de 1893, nascia Vera Mary Brittain em Newcastle-under-Lyme, Staffordshire, Inglaterra. Enfermeira, escritora, feminista e pacifista britânica, em seu livro de memórias, “Testament of Youth”, ela contou suas experiências traumáticas durante a Primeira Guerra Mundial.

Tudo começou após ela se afastar da rotina acadêmica para trabalhar como enfermeira voluntária na Primeira Guerra Mundial. Seu irmão, namorado e amigos deixavam suspensas suas vidas na linha de combate. Desamparada e atordoada, Vera Brittain não pensou duas vezes e achou melhor fazer algo prático e deixar seus sonhos de lado para viver de perto a realidade da guerra que a assombrava a cada minuto repleto de pensamentos ruins e medos desesperadores.

Nunca devo temer enfrentar a realidade. O imaginário me apavora muito mais.

Vera Brittain

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Shirley Williams (filha de Vera) em frente à casa da mãe.

Nascida em uma família de classe média alta, proprietária de duas fábricas de papel, não faltava conforto à Vera Mary Brittain. Seu pai, Thomas Arthur Brittain (1864-1935) queria que ela tivesse o mesmo futuro da esposa Edith Bervon Brittain (1868-1948), jamais esperou a filha torna-se uma ativista política, enfermeira e escritora talentosa como foi. Ele acreditava que o principal papel da educação era preparar as mulheres para o casamento, mas parece que não sabia sobre os aprendizados que sua filha vinha tendo enquanto estudava no internato St Monica’s, onde sua tia era diretora. No internato, Vera Brittain foi influenciada pela literatura feminina como a de Dorothea Beale, Emily Davies e por feministas como Olive Schreiner.

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Vera Brittain e Roland Leighton

A jovem sonhadora queria muito entrar para Universidade, entretanto, permanecia estagnada em sua casa. Até que no ano de 1913, seu irmão Edward Brittain, apresentou ela ao seu amigo Roland Leighton, ele havia acabado de passar para o Merton College da Universidade de Oxford. Conhecendo melhor Vera, Roland a incentivou a estudar fora e junto com Edward, eles convenceram Thomas Arthur Brittain a autorizar a ida de Vera ao Somerville College, em Oxford. Roland Leighton ganhou o coração de Vera, e deu à ela uma cópia do livro A História de uma Fazenda Africana da feminista Olive Schreiner, dizendo que Vera se parecia com a personagem principal, Lyndall.

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ele (Roland) parece mesmo em um pequeno conhecimento compartilhar minhas falhas, meus talentos e minhas idéias de uma forma que eu nunca encontrei em ninguém ainda.

Vera Brittain

Nesse momento, Edward, Roland, Vera e seus dois amigos, Victor Richardson e Geoffrey Thurlow iriam estudar juntos em Oxford, porém os planos mudaram. Na eclosão da Primeira Guerra Mundial, eles imediatamente se alistaram no Exército Britânico, e Vera ficou para trás. Sozinha, ela tentou se concentrar nos estudos, mas vivia a angústia da espera por notícias e durante isso as únicas que recebia eram a lista dos mortos estampada na folha principal do jornal.

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(…) a guerra parece trazer para fora tudo o que é nobre na natureza humana, mas contra isso você pode dizer que traz para fora todos os bárbaros também. Mas se é nobre ou bárbaro, tenho a certeza de que, se fosse um rapaz, teria ido participar há muito tempo, na verdade perdi muitos momentos lamentando que sou uma garota. As mulheres têm toda a insignificância da guerra, obtêm tristeza e nenhuma das suas alegrias.
Vera para Roland 

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1914: a chegada de Vera Brittain em Oxford

A estudante de literatura inglesa da Somerville College, abandonou a tranqüilidade ainda no final do primeiro ano da Universidade, para viver momentos de tensão, terror e salvação como enfermeira VAD (Voluntary Aid Detachment), acreditando na suposição de que a guerra terminaria em um ano. 

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Enfermeira de guerra, Vera Brittain

Em junho de 1915 sua vida como enfermeira dava início no Hospital Devonshire, em Buxton, logo ela percebeu o quanto seria uma experiência traumática e dolorosa. Uma das coisas que ela mais temia no trabalho era ver o sofrimento dos pais ao se depararem com o estado enfermo dos filhos soldados. Em novembro, ela foi transferida a um hospital militar (First London General Hospital) em Camberwell, relatando sua vivência numa carta escrita para Roland Leighton.

Eu tenho apenas um desejo na vida agora e isso é para o fim da guerra. Eu me pergunto o quanto realmente tudo o que você viu e fez mudou você. Pessoalmente, depois de ver algumas das coisas terríveis que eu tenho que ver aqui, eu sinto que nunca mais serei a mesma pessoa, e me pergunto se, quando a guerra acabar, eu terei esquecido como rir… Um dia na semana passada eu saí de uma amputação terrível que eu estava ajudando, com minhas mãos cobertas de sangue e minha mente cheia de uma fúria apaixonada pela maldade da guerra, eu desejei nunca ter nascido.
Vera Brittain

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Morte de Roland Leighton

Posteriormente, ela foi trabalhar em Malta e, na França, o país que provavelmente teve uma das passagens mais traumáticas. Em 23 de dezembro de 1915, enquanto ela esperava em Brighton que Roland chegasse em casa pela licença de Natal, Vera Brittain recebeu a pior notícia, faltando pouco para se casar com Roland Leighton, seu sonho se tornou um dos piores pesadelos que ela tanto temia, seu noivo havia sido morto na França por um atirador alemão. O túmulo de Roland Leighton no pequeno cemitério em Louvencourt é frequentemente coberto de violetas em homenagem ao poema de amor, “Violets from Plug Street Wood ”, que ele escreveu para sua noiva Vera.

O Horror da Guerra

Más notícias chegaram novamente em abril de 1917, agora sobre seus dois amigos, a morte de Geoffrey Thurlow e a cegueira de Victor Richardson que acabou falecendo devido a um abcesso cerebral no mês de junho. Antes de morrer, Victor Richardson perdeu as esperanças de que voltaria a enxergar, então ele teve um surto psicótico, tornou-se angustiado, desorientado e delirante, assim foram suas últimas horas.

Vera Brittain não desistiu da enfermagem e continuou atuando na VAD. De agosto de 1917 até o final de abril de 1918, ela estava trabalhando no Hospital Geral Nº 24, em Étaples, na França. Ela escreveu sobre esse período no seu diário de guerra, “Testament of Youth”, no capítulo intitulado “Between the Sandhills and the Sea“.

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Alemão com bolhas pelo corpo devido ao gás mostarda.

Étaples é um porto de pesca e ao norte os britânicos estabeleceram um grande campo de treinamento e um complexo de nove grandes hospitais, quase inteiramente compostos por cabanas. Vera foi inicialmente designada para cuidar dos alemães com bolhas severas na pele, dificuldade de respirar e cegueira temporária ou às vezes permanente, todos provocados pelo gás mostrada. Esse hospital foi bombardeado várias vezes em 1918. Vera Brittain sofreu mais de um mês de ataques aéreos noturnos que a deixaram exausta “mais assustada do que eu jamais tinha estado em toda a minha vida”. Ela deixou Étaples antes dos piores bombardeios de maio, junho e agosto de 1918, quando pacientes e enfermeiras foram todos mortos.

Aqui estou eu, querido Edward… lutando para salvar soldados alemães… que a poucos quilômetros daqui… você arrisca a vida para matar. Isso nos faz pensar. Realmente, faz pensar.
Vera ao irmão.

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Vera Brittain trabalhando como enfermeira.

Ao cuidar dos soldados alemães feridos, segurando suas mãos era como se ela segurasse também as mãos daqueles que ela amava e que se foram ou estavam distantes dela, as dores são as mesmas independente da nação que cada um representasse, antes de tudo, somos humanos. Isso era uma percepção crescente que vinha da prática como enfermeira, a guerra não leva a nada.

Assim, eles compartilharam o ‘sacrifício supremo’, o que os tornou iguais na morte como na vida.

Vera Brittain

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Casa da família Brittain

Vera deixou o Hospital Geral Nº 24 (Étaples) após receber uma carta do seu pai informando que a mãe dela havia sofrido um colapso mental (esgotamento nervoso) e estava num lar de idosos em Mayfair. Thomas Arthur Brittain disse que era dever da filha deixar a França imediatamente e voltar para casa em Kensington. Vera retornou à Inglaterra em abril de 1918, buscou sua mãe e cuidou dela. Afastada da enfermagem, ela assumia o controle da casa e voltava à uma remota e monótona vida, algo que não combinava mais com sua personalidade e seus desejos de mudar o mundo.

VAD: as mulheres na Primeira Guerra Mundial

Em sua autobiografia “Testament of Youth”, ela descreveu sobre as condições precárias e as longas horas de trabalho que as jovens enfermeiras passavam naquele inferno. Para muitas mulheres, tornar-se uma VAD significava ser capaz de “fazer a sua parte” assim como seus irmãos, pais, tios, namorados e filhos na guerra. Mais de 90.000 mulheres serviram como VADs ao longo da guerra, e Vera se tornou a mais conhecida delas.

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A jovem enfermeira tinha consciência do papel das mulheres na guerra, que deixavam suas lágrimas escorrerem, não se rendiam e iam à luta, fazendo algo que as mantivessem ocupadas das incertezas ou no caminho para a superação de uma ou mais perdas. Era o começo da aceitação do trabalho feminino em muitas áreas, que antes eram de responsabilidade somente dos homens. Entre 1914 e 1918, estima-se que dois milhões de mulheres assumiram empregos anteriormente ocupados por homens. A guerra levou ao avanço social e ao voto concedido às mulheres no Reino Unido em 1918.

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Muitas mulheres que trabalhavam na fabricação de munição sofreram problemas de saúde ou mesmo morreram devido à exposição excessiva aos produtos químicos, elas eram apelidadas de “canários” por causa da pele amarela, causada pelo TNT. 

Transtorno de Estresse Pós-Traumático

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Naquela época o caos da guerra estourava na mente de todos, eram 80.000 casos de transtorno de estresse pós-traumático relatados pelo exército britânico entre 1914 e 1918. Os soldados eram de certa forma vítimas da cultura de masculinidade, que exigiu deles um esforço mental insuperável diante de tantas atrocidades vistas. Aqueles jovens rapazes entravam na linha de frente com um imaginário que não correspondia à realidade, o colapso mental era a inevitável e mostrava o sofrimento deles como a única resposta verdadeiramente humana durante os tempos de guerra.

As consequências da guerra também destruíam a saúde mental das mulheres. Vera Brittan sofreu alucinações, delírios, pesadelos e insônia, que atribuía ao cansaço e estresse excessivo. Embora fossem feitos os primeiros diagnósticos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), isso ainda era algo pouco comentado e muitos não sabiam precisamente de que mal estavam sofrendo, inclusive, Vera Brittain. Além disso, esse era um diagnóstico dado exclusivamente aos soldados, mesmo com as mulheres atuando na guerra.

Se eu tivesse consultado um médico competente imediatamente após a guerra, eu poderia ter sido poupada há dezoito meses da exaustiva batalha contra o colapso mental.

Vera Brittan

Morte do irmão, Edward Brittain

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Tentando se recuperar dos traumas da guerra, em sua permanência na Inglaterra, Vera encontrou seu irmão Edward Brittain pela última vez. Ele parecia irreconhecível como um homem estranho, silencioso e assustador, que nunca sorria ou falava, exceto sobre coisas banais. Depois disso, não houve mais a oportunidade de um reencontro.
Em 15 de junho de 1918, ele foi morto com um tiro na cabeça na Batalha de Asiago, na frente italiana. O tenente-coronel Charles Hudson, ordenou uma investigação sobre a homossexualidade de Edward, após ler uma carta dele. O irmão de Vera não sabia que as cartas eram censuradas e foi confrontado. Diante do medo, da vergonha e sob ameaça de corte marcial, Edward Brittain entrou em batalha buscando a morte.

Eu terminei a Primeira Guerra Mundial com minhas emoções mais profundas paralisadas, se não mortas. Isso não teria acontecido se eu tivesse deixado uma pessoa… Eu poderia ter casado com Victor em memória de Roland e Geoffrey em memória de Edward, mas a guerra levou até a segunda melhor. Não deixou nada. Só a ambição me levou à vida.

Vera Brittain

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Edward Brittain, Roland Leighton e Victor Richardson.

As cartas trocadas entre ela, o noivo, irmão e amigos foram publicadas no livro Letters from a Lost Generation. Terminado seu trabalho como enfermeira voluntária na guerra, de volta à Somerville College, uma das primeiras faculdades para mulheres, Vera Brittain trocou o curso de Literatura Inglesa por História, em 1919. No entanto, foi difícil se ajustar aos tempos de paz, por incrível que pareça. Vera não se arrependeu pela troca de curso, pois dizia que ao estudar as relações internacionais e os grandes acordos diplomáticos do século XIX, ela descobriu que a natureza humana muda, aprende a odiar a opressão, a depreciar o espírito de vingança, de se revoltar com atos de crueldade e, finalmente, de incorporar essas mudanças de coração. Ela esperava que o curso de História a ajudasse a “entender como toda a calamidade (da guerra) havia acontecido, saber por que foi possível para mim e meus contemporâneos, através de nossa própria ignorância e engenhosidade dos outros, sermos usados, hipnotizados e abatidos “.

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Tendas de um hospital militar que estavam no campus da Somerville College durante a Primeira Guerra Mundial.

Vera Brittain, Winifred Holtby e George Catlin

Em Somerville College, ela conheceu Winifred Holtby e as duas tornaram-se grandes amigas com o desejo de se estabelecerem na cena literária de Londres. Logo depois, em 1925, Vera se casou com o cientista político e filósofo George Edward Catlin (1896-1979), a relação entre eles era difícil e ele não aprovava sua amizade. Segundo ele, era como se Winifred Holtby fosse o segundo “eu” de Vera, as duas não se desgrudavam, haviam boatos de que fossem lésbicas e isso era irritante para George Catlin.

Alguns críticos e comentaristas sugeriram que a relação delas fosse lésbica. Minha mãe se ressentia profundamente. Ela sentiu um anti-feminismo no sentido de que as mulheres nunca pudessem ser amigas de verdade a menos que houvesse uma motivação sexual, enquanto as amizades dos homens eram celebradas na literatura desde os tempos clássicos. Minha mãe era heterossexual. Mas como uma autora famosa de opiniões progressistas, ela se tornou um ícone para as feministas e em particular para feministas lésbicas.

Shirley Williams, filha de Vera.

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Vera Brittain e George Catlin

O casal mudou-se para os Estados Unidos quando George Catlin se tornou professor na Universidade de Cornell, mas ela não se adequou aos Estados Unidos, não se sentia satisfeita e depois do nascimento de seus dois filhos, John (1927) e Shirley (1930), ela voltou para a Inglaterra, onde morou com sua melhor amiga, Winifred Holtby.

Você preferiu ela a mim. Isso me humilhou e me consumiu.
George Catlin

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De volta à Inglaterra em 1930, Vera soube que sua amiga estava sofrendo de pressão alta, dores de cabeça recorrentes e esgotamento nervoso, sendo diagnosticada com a doença de Bright (insuficiência renal crônica). Winifred Holtby morreu em 29 de setembro de 1935. No mesmo ano, Vera Brittain sofreu mais uma perda, seu pai havia se suicidado. Deprimida, Vera lutou para completar seu romance, Honorable Estate (1936), uma saga familiar baseada na história recente das famílias Brittain e Catlin, desagradando novamente George Catlin, o livro aponta para questões tabu como o aborto, o sexo extraconjugal e a homossexualidade, e conta sobre a revolução das mulheres em três gerações de casamentos e vidas delas durante as eras vitoriana e eduardiana.

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Vera Brittain, a escritora e feminista

Os romances escritos por Vera possuíam seus sentimentos, tudo era feito a partir de suas próprias experiências e pessoas que ela conhecia. The Dark Tide (1923), o primeiro romance de Vera publicado não agradou nem um pouco seus antigos professores e a Universidade de Oxford, especialmente, Somerville College, pois não gostaram do modo como ela os mencionou. Not Without Honor (1925), também fracassou nas vendas, ambos romances foram ignorados pelos críticos. 

O trabalho que realmente a tornou famosa foi seu diário de guerra, Testament of Youth (1933), seguido por Testament of Friendship (1940) um tributo e biografia da sua amiga Winfred Holtby, e Testament of Experience (1957) a continuação da sua própria história de vida entre 1925 e 1950. Após, isso ela tornou-se escritora em tempo integral.

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Ensaios literários de Vera Brittain descrevendo como Primeira Guerra Mundial desencadeou a revolução feminista

Vera Brittain teve mais sucesso com o jornalismo ao escrever para a revista feminista Time and Tide, rendendo dois livros publicados sobre o papel das mulheres, Women’s Work in Modern Britain (1928) e Halcyon or the Future of Monogamy (1929). Sempre na defesa pelos direitos iguais no trabalho e casamento, ela deu reconhecimento e voz às mulheres.

Ninguém se lembra das mulheres que iniciaram seu serviço de guerra com ideais tão elevados ou quão severas elas continuaram quando aquela fé flamejante se desintegrou nas cinzas da desilusão?

Vera Brittain

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O mito da inferioridade feminina sempre esteve enraizado na afirmação de que os homens morrem por seu país, mas as mulheres não.
Vera Brittain

Vera Brittain

A luta pela igualdade e paz nos tempos de guerra

Ao longo da vida, Vera Brittain empenhou-se em causas pacifistas e na defesa dos direitos das mulheres. Na década de 1920, Vera já discursava regularmente em nome da União da Liga das NaçõesEm 7 de julho de 1934, ela participou de uma manifestação junto com o escritor Aldous Huxley contra a União Britânica de Fascistas e o líder Oswald Mosley, sendo agredidos. No ano de 1937, ela se comprometeu a Comunhão Pacifista Anglicana.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, ela estava ativa na campanha de ajuda alimentar da União Promessa da Paz e também trabalhou como vigilante de incêndios. Em 1939, sua afiliação ao pacifismo tornou-se ainda mais forte ao criar um boletim de notícias, o Letters for Peacelovers, por causa de suas críticas expressas, o nome dela foi incluído no “Livro Negro”, uma lista feita pelos nazistas com quase 3000 pessoas que seriam imediatamente detidas e mortas, caso houvesse uma invasão alemã no Reino Unido, os nomes de Sigmund Freud Virginia Woolf também estavam na lista.

Pela sua coragem e pensamento, ela foi convidada a juntar-se ao conselho editorial da revista pacifista Peace News nas décadas de 1950 e 1960, escrevendo artigos contra o apartheid, o colonialismo e a favor do desarmamento nuclear.

A obra-prima “Testament of Youth” e sua morte

O primeiro volume de sua autobiografia, Testament of Youth (1933), se tornou best-seller na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Vera Brittain “da noite pro dia” virou uma escritora de sucesso. Sua obra-prima ganhou forma a partir do seu diário e correspondências enviadas durante a Primeira Guerra Mundial ao seu irmão Edward Brittain, o noivo Roland Leighton e seus dois amigos mais próximos, Victor Richardson e Geoffrey Thurlow. Em 1916, ela escreveu a Edward: “Se a guerra me poupar, será meu único objetivo imortalizar em um livro a história de nós quatro”.

De todas as narrativas pessoais cobrindo o período da guerra mundial, certamente não houve nenhum mais honesto, mais revelador… ou mais dolorosamente lindo que o de Vera Brittain.

Crítico

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Testament of Youth foi um marco, uma mudança significativa dos livros de guerra, antes escritos apenas por homens, contendo memórias e percepções masculinas. Não só na literatura essa mudança foi propostas por Vera, mas também na forma de pensar sobre a guerra. Vera Brittain chamou Testament of Youth de “apelo apaixonado pela paz”, que descreve “sem qualquer disfarce educado, a agonia da guerra para o indivíduo e sua destrutividade para a raça humana” servindo de alerta às seguintes gerações, para que não sejam ingênuos ao idealizarem algo tão horroroso.

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O fim da guerra

Seus últimos dois romances, Account Rendered (1945) e Born 1925: a Novel of Youth (1948), venderam mal e, como resultado, ela se afastou da ficção. Sua reputação estava em seu ponto mais baixo.

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Em novembro de 1966, Vera sofreu uma queda numa rua mal iluminada de Londres quando caminhava ao local que discursaria. Ela não faltou ao seu compromisso mesmo com muita dor, após o evento ela descobriu que tinha partido o braço esquerdo e o dedo mindinho na mão direita. Os ferimentos ganhos davam aviso início do declínio da sua saúde física e mental, se tornando cada vez mais confusa e isolada.

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Shirley Williams (filha) e Vera Brittain

Ela acreditava que, como escritora havia sido esquecida, como uma voz enfraquecida de uma geração agonizante.

Shirley Williams

Depois de uma vida de batalha e muito esforço, aos 76 anos, no dia 29 de março de 1970, Vera Brittain descansou. Ela estava em um lar de idosos, em Wimbledon. Nunca conseguiu superar a morte do seu irmão Edward Brittain na Primeira Guerra Mundial. Por isso, após visitar o túmulo do irmão na companhia de sua melhor amiga Winifred Holtby, Vera colocou em seu testamento que suas cinzas fossem depositadas em cima do túmulo de Edward, no cemitério de Granezza, em Asiago na Itália. Seu último pedido foi atendido por sua filha.

Durante quase 50 anos, seu coração ficou no cemitério daquela aldeia italiana.

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Escultura de Vera Brittain em Brampton Park

Quem não gostaria de sentar ao lado dessa mulher? Ela teria muitas histórias a contar… Se você gostou do post, não esquece de comentar e deixar o seu “gostei” para apoiar meu trabalho. Não existe nenhum conteúdo extenso sobre Vera Brittain em português além dessa biografia no Melkberg, então compartilhem com seus amigos essa grande história sobre essa grande mulher :)

 

Imagens – Google e Imperial War Museums

 

 

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