Fenômeno Doppelgänger e Mito do Duplo em Filme - Melkberg - psicologia, arte & cultura - doppelgänger - duplo - morte - corpo - fenômeno - estranho - personalidade - Outro - história - folclore alemão - sentido - psicanálise - mito - lenda - filme

Fenômeno Doppelgänger e Mito do Duplo em Filme

Você já pensou em estar em dois lugares ao mesmo tempo? Veja bem, talvez essa não seja um boa ideia…

O mito do doppelgänger ou o “duplo” causa fascínio na humanidade há milênios e foi representado de formas variadas ao longo da história, pelo folclore alemão, cinema, literatura, psicanálise e etc. Retratado muitas vezes como um fenômeno fantasmagórico ou paranormal, visto como um prenúncio de má sorte, o doppelgänger seria um fantasma de uma pessoa viva ou um fenômeno da bilocação.

Etimologicamente, a palavra vem de doppel (duplo) e ganger (que anda). Apesar da lenda ser antiga, o termo doppelgänger foi criado pelo escritor Jean Paul em seu romance “Siebenkäs” de 1796, inspirado no folclore alemão. O personagem do livro, Siebenkäs, consultou seu doppelgänger sobre como se livrar de um casamento infeliz e o “duplo” o convenceu a forjar a própria morte para ficar desimpedido. Na verdade, a criatura mística funcionou como o alter ego do Siebenkäs.

O mito do Döppelganger (o duplo ou o Outro) está presente várias culturas e obras da literatura, como: “O Homem de Areia” e “O Elixir do Diabo” de E.T.A. Hoffman; “O Duplo” de Fiódor Dostoiévski; “Willliam Wilson” de Edgar Allan Poe; e “O Horlá” de Guy de Maupassant.

O doppelgänger é uma cópia física de um indivíduo, porém geralmente é oposta em características, aspirações e desejos. Como um “irmão gêmeo maligno”, ele perambula por aí, mas sempre pega o caminho que rejeitamos, faz o que temos medo de fazer e diz o que não temos coragem da falar.

Folclore Alemão

No folclore alemão, existe a lenda de uma criatura mística que teria a capacidade de escolher, por qualquer motivo, uma “vítima” e copiar todas as características físicas dela. Depois do processo de duplicação, o ser passaria a acompanhar o indivíduo por onde ele fosse. Doppelgänger não tem sombra ou reflexo, muito parecido com os vampiros em algumas tradições. Quando conversa com o “original”, o doppelgänger aparenta dar conselhos de vida, mas está intencionalmente plantando ideias maléficas, maus conselhos e pensamentos na mente da vítima.

Como só pode existir uma pessoa, a personalidade do doppelgänger costuma ser oposta. Se um é gentil e carinhoso, o duplo parece ríspido e egoísta. Caso se encontrem, inevitavelmente tentam um eliminar ao outro. Em diversos mitos, ver a própria cópia significaria um sinal de má sorte, doença grave ou até mesmo um aviso de que a morte está próxima. Como escreveu o dramaturgo sueco Strindberg: Quem vê seu duplo vai morrer.

Psicanálise

Para a psicanálise, um doppelgänger possui características semelhantes e opostas ao indivíduo, ele representa a tentativa do paciente de lidar com certos aspectos de sua mente e personalidade, que está lutando para controlar. Em geral, o aspecto reprimido da psique que o duplo simboliza deve ser confrontado e, em última análise, derrotado para que ele desapareça. Sendo assim, o duplo representa a quebra da segurança, a presença do estranho, do “maligno”.

A partir do conto “O Homem de Areia” de E.T.A. Hoffman, Sigmund Freud trabalhou o conceito de “o estranho” (unheimlich), que simboliza aquilo que um dia foi extremamente familiar e retorna como estranho provocando o horror presente no fenômeno do duplo, do qual o sujeito quer se livrar a qualquer custo, visto que há um estranho dentro de sua mente. Isso é assustador e angustiante, pois o que permanecia secreto no inconsciente se emerge e manifesta, provocando a perda da capacidade de distinguir entre a realidade e a fantasia, a sanidade e a loucura. Foge do controle, ao mesmo tempo que o sujeito se reconhece no döppelganger também percebe uma radical estranheza devido aos conteúdos inconscientes reprimidos, nesse momento ele se sente como que habitado por um “Outro” desconhecido.

O duplo não se relaciona somente à loucura, mas também a própria morte. Como uma personalidade reprimida ou qualquer outra manifestação, o doppelgänger traz consigo, na grande maioria das narrativas, a desgraça. Justamente, porque o duplo se iguala ao “estranho”, o “inquietante”, o “infamiliar“, o “Eu” sem ser o “eu”. Por isso, mesmo quando não significa a morte literal de um personagem na ficção, o “estranho” significa sua morte figurada. A morte da sua identidade. A morte do “Eu”.

Fenômeno Parapsicológico

Sob a perspectiva da parapsicologia, o duplo é formado de um tipo de matéria mais rarefeita ou sutil e os nossos cinco sentidos não são capazes de perceber, mas ainda é matéria pertencente ao plano físico e, de vez em quando, pode ser visto por algumas pessoas.

O doppelgänger manteria união intrínseca com sua metade de carne e osso. Assim, um ferimento causado no corpo etéreo se refletiria no corpo físico. Quanto mais o corpo etéreo existir, mais debilitado o corpo físico fica, pois há uma transferência de energia. A separação do duplo etéreo do corpo denso geralmente é acompanhada de um considerável decréscimo na vitalidade do último, ficando o duplo mais vitalizado à medida que a energia no corpo denso diminui, podendo levar à morte do indivíduo.

Lenda Urbana

Letônia, 1845. Durante uma aula da professora de francês Emile Sageé, no Pensionato von Neuwelcke, enquanto escrevia no quadro-negro, treze alunas perceberam algo assustador, outra mulher idêntica surgiu ao lado dela, imitando todos os seus movimentos, mas sem qualquer giz em mãos. Imediatamente, as meninas chamaram a atenção de Emilie, mas ao se virar, a professora não viu nada. Em outra ocasião, as meninas identificaram o doppelgänger parado na frente da sala de aula, enquanto Emile andava nos jardins da escola. Nas duas situações, a professora relatou ter sentido muita fraqueza.

Algo parecido aconteceu com o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) enquanto cavalgava um dia por uma estrada, teria visto um outro homem, seu sósia perfeito vindo em sentido contrário montado a cavalo e vestindo um traje cinza com detalhes em dourado. Oito anos depois, Goethe cavalgava pelo mesmo local, no mesmo sentido que teria visto seu doppelgänger. Foi aí que ele percebeu que se vestia exatamente como seu sósia estava no passado. Teria Goethe vislumbrado seu próprio futuro?

Neurociência e Neurologia

O cérebro continua a ser um dos órgãos mais enigmáticos. Existe uma explicação neurológica para os casos do fenômeno Doppelgänger. Autoscopia é um termo usado para descrever a experiência mental subjetiva que consiste na sensação de ver a si mesmo e ao mundo como se estivesse fora do próprio corpo. Na psiquiatria, a autoscopia recorrente pode ser sintoma de esquizofrenia e epilepsia.

Em 2006, o fenômeno foi comprovado como biológico após a pesquisa do Hospital Universitário de Genebra, na Suíça, onde todos submetidos ao experimento conseguiram ver, sentir e tocar suas “cópias” depois de serem estimulados eletricamente no lobo temporoparietal esquerdo. É nessa parte do cérebro que estão guardadas informações a respeito da própria imagem e personalidade.

Depois de tooodas essas explicações, vamos às sugestões de filme e série…

O Homem Duplicado (2013)

Adam Bell é um professor de história entediado com sua rotina. A vida dele muda completamente quando ele assiste a um filme e descobre que tem um sósia. Em busca desse ator, Adam cria uma verdadeira obsessão e começa a perseguir o homem.

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A Vida Dupla de Veronique (1991)

O filme abre com a história de Veronika, uma jovem polonesa com um talento absurdo para a música erudita. Sua voz é incomparável. Após conseguir entrar em uma escola de música, Veronika se apresenta pela primeira vez e morre, com um ataque cardíaco. Veronique é uma jovem francesa com um grande talento musical. Sua vida seguia bem até que ela sente como se estivesse só. Perde o interesse na música e acaba se relacionando um manipulador de fantoches, Alexandre Fabbri, que a conduz para uma espécie de conto da vida real.

A história é bastante simples: duas jovens, de mesma idade, que não se conhecem, que moram em países diferentes e que têm o mesmo gosto musical, mas que possuem uma ligação metafísica inexplicável. A simplicidade da trama é trabalhada pela direção magnífica de Kieslowski, que conta essa fábula através de imagens, sons, cores e gestos fabulosos.

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Nós (2019)

Adelaide e Gabe levam a família para passar um fim de semana na praia e descansar. Eles começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seres com aparências iguais às suas.

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Twin Peaks (2017)

O agente do FBI Dale Cooper viaja para a pequena cidade de Twin Peaks para investigar o assassinato da jovem Laura Palmer, e conhece um mundo onde as aparências enganam.

Fenômeno Doppelgänger e Mito do Duplo em Filme - Melkberg - psicologia, arte & cultura - doppelgänger - duplo - morte - corpo - fenômeno - estranho - personalidade - Outro - história - folclore alemão - sentido - psicanálise - mito - lenda - filmeO Duplo (2013)

Simon é tímido e aparenta impotência nas poucas tentativas de mudar de vida. Ignorado pela mulher de seus sonhos, invisível no trabalho, Simon vê as coisas complicarem ainda mais com a chegada de alguém que é idêntico a ele fisicamente. No entanto, o novato é confiante e carismático.

E você, já viu o doppelgänger de alguém ou o seu próprio? Tem alguma sugestão de filme ou série? Comente aqui embaixo e compartilhe esse conteúdo para alcançar mais pessoas :)

ARTE: Como eles conheceram Eles mesmos, de Dante Gabriel Rossetti, 1864.

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Um comentário em “Fenômeno Doppelgänger e Mito do Duplo em Filme”

  1. Olá, espero que esteja tudo na paz por ai. Por aqui tudo bem, estava tendo pouco tempo livre nas últimas semanas, o que estava me deixando um pouco triste, já que gosto de ter um tempo pra mim, pra escrever, ler, assistir.
    Já tem muito tempo que não assisto um filme, e era uma rotina básica para mim há pouco tempo atrás, e o que deu origem a muitas matérias no meu blog.
    Estava ouvindo algumas músicas no computador e aproveitei para ler sua matéria.
    Muito legal o tema, a primeira vez que ouvi sobre doppelganger foi através de uma moça que leu um conto meu chamado O Poço, e ela disse que a história lembrou um pouco esse fenômeno.
    Achei bem curioso, e por coincidência, uma diretora que gosto muito chamada Mari Asato fez um filme chamado Bilocation 2013, recomendo assistir.
    No filme nossas cópias são criadas a partir de nossos desejos (algo parecido com a ideia do filme Cure 1997), em que nossos desejos ganham vida.
    Em Bilocation, todo sentimento que se intensifica, ele se materializa em uma cópia nossa, o que me fez pensar, quantas cópias existem em nós?
    Muitas vezes o que a gente mostra para a sociedade não é a nossa verdadeira face, é apenas a superfície de quem somos, existem muitos desejos guardados em nós que se tivéssemos uma oportunidade, realizaríamos eles, e muitos deles são sombrios. As cópias nos filmes fazem tudo aquilo que os personagens queriam fazer mas tinham medo de realizar.
    A protagonista por exemplo se vê em conflito entre seu lado profissional e seu lado amoroso. E no filme ela decide dar importância a sua carreira de pintora, mas ao mesmo tempo ganha uma cópia sua em que se dedica ao casamento, e no final ela tem que escolher qual cópia quer continuar vivendo.
    No final todas cópias são nós mesmos e cada uma materializa um sentimento nosso.
    No filme existem as cópias assassinas, que são os desejos criminosos das pessoas, “Como um “irmão gêmeo maligno”. Muitas vezes esse irmão gêmeo somos nós mesmos, quantas pessoas que na realidade queriam praticar atos cruéis e só não fazem por leis que existem em nossa sociedade (o filme Cure mostra bastante isso).
    Apesar da lenda mostrar esse fenômeno de forma diferente do filme, “Como só pode existir uma pessoa, a personalidade do doppelgänger costuma ser oposta. Se um é gentil e carinhoso, o duplo parece ríspido e egoísta”, Mari Asato usa a cópia para mostrar que ela e a pessoa original são as mesmas em desejos e sentimentos, a versão cruel existe dentro da pessoa aparentemente boa pela sociedade, mas que existe uma parte profunda dela que ainda não se revelou, e que se materializa numa cópia.
    Parabéns pela matéria. Espero que esteja tudo bem por ai nesse começo de ano.
    Por causa do trabalho ainda não produzi nada novo para meu blog. (Leia algumas matérias dele quando puder).
    Ano passado eu me dediquei bastante as ilustrações, e quase não escrevi muito. Esse ano quero voltar a escrever contos com mais frequência. Vou voltar a publicar no site Recanto das Letras, e quando voltar, se você me permitir, gostaria de te enviar alguns contos por e-mail. Até mais.

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