Rússia E A Teoria De Raskólnikov Em Crime E Castigo – Dostoiévski

Publicado em 1866, Crime e castigo é a obra mais célebre de Fiódor Dostoiévski. Neste livro, Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petersburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria: grandes homens, como César ou Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania. Esta é a primeira tradução direta da obra lançada no Brasil, e recebeu em 2002 o Prêmio Paulo Rónai de Tradução da Fundação Biblioteca Nacional.

CRIME E CASTIGO, DE DOSTOIÉVSKI

RÚSSIA E A TEORIA DE RASKÓLNIKOV

Dostoiévski em Crime e Castigo, explora a mente do protagonista Raskólnikov, os comportamentos patológicos dos seres humanos, o significado da vida e a existência num mundo miserável repleto de maldade e sofrimento, além de se profundar em questões sobre os limites da moral e das leis.

O autor deixa claro alguns questionamentos, como: Se Deus está morto, então tudo é permitido? A confissão e a força da lei são preferíveis à tortura de sua consciência? O assassinato de uma pessoa seria moralmente errado se o objetivo fosse nobre?

Pelas ruas de São Petersburgo vagava Raskólnikov e seus pensamentos, acompanhamos através de sua descrição como era a realidade lamentável da maior parte da população da Rússia czarista do século XIX que se encontrava nas ruas e tabernas, afogando todas suas mágoas e revoltas no álcool e arrecadando pequenas quantias na prostituição.

Crime e Castigo(título original: “Culpa e Expiação”) é um pouco autobiográfico. Fiódor Dostoiévski fazia parte do grupo intelectual socialista chamado de Círculo Petrashévski e foi acusado de conspirar contra o czar Nicolau I, no ano de 1849, depois de passar pelo tormento da falsa execução diante de um pelotão de fuzilamento, ele penou muitos anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde passou a sofrer de epilepsia. Ao ser libertado, problemas com credores o levaram a se auto exilar no Leste Europeu.

No romance, a maior motivação de todas para o crime de Raskólnikov  é a percepção que o estudante tem de si mesmo, ele se enxerga como alguém superior, acima da lei, como um ser “extraordinário”. Possui nojo de pessoas comuns, vistas por ele como seres “ordinários”, estes seriam como piolhos que poderiam ser eliminadas facilmente. Para Raskólnikov, os grandes homens transgridem leis antiquadas e assim, estão dispostos até cometer crimes, derramar o sangue se for necessário para “servir à sua causa”. Essa motivação que o autor destaca como a principal para o crime, reflete sua própria angústia real em relação às mudanças ocorridas na sociedade russa: a ascensão do materialismo, o declínio da velha ordem e a popularidade das filosofias individualistas e niilistas. O ato do crime praticado por Raskólnikov e sua revelação, serve como advertência aos compatriotas de Dostoiévski com inclinações para a mudança revolucionária.

Sem nenhum arrependimento de ter assassinado a idosa, já que estava convencido de ela tinha um péssimo caráter e se enriquecia explorando pessoas vulneráveis ao pagar baixo valor pelos objetos penhorados. Raskólnikov não se sente culpado pelo crime, mas ele faz parte de uma sociedade extremamente moral e católica, czarista e aristocrática como a Rússia, esse contexto então passa a exercer uma pressão moral muito grande sobre ele. Sua mãe e irmã se aproximam quando percebem que Raskólnikov está em apuros, o que o deixa ainda mais perturbado, pois elas são muito religiosas e ele não quer desapontá-las e causar vergonha à família.

Continuas rezando a Deus, Ródia, e acreditando na misericórdia do nosso Criador e Salvador? Há um temor em meu coração: não terias sido tu também atingido pela mais nova moda do ateísmo? Se aconteceu, então rezo por ti.

ANÁLISE PSICOLÓGICA

Raskólnikov era melancólico, explosivo, arrogante e generoso. Ao se comparar a Napoleão e se achar um ser extraordinário, ele desconsiderou o impacto emocional e psicológico das consequências de sua teoria, carregando-a como um fardo por ter cometido o assassinato. Acredito que ele se deu conta que não fazia parte dos “extraordinários” como imaginava, por isso ele se arrepende, sim. Porém, o arrependimento e sentimento de culpa não é pelo crime, mas pelo castigo que terá que sofrer, a loucura! Considerando os delírios e alucinações, confusão mental, paranoia, apatia, isolamento, agressividade, descuido com a aparência e higiene, Raskólnikov seria um esquizofrênico paranoide.

A Psicologia não existia enquanto ciência na época que Dostoiévski escreveu seus livros. No entanto, a profundidade da análise psicológica que o autor faz de seus personagens é surpreendente. O próprio Dostoiévski deu um diagnóstico ao seu anti-herói. Ao final do julgamento, após confessar o crime, visto que às incongruências por trás de suas ações, Raskólnikov apresentava a monomania, isto é, a obsessão por uma única ideia delirante.

Discípulo de Pinel, Jean-Étienne Dominique Esquirol (1772-1840), um dos psiquiatras mais influentes do século XIX, foi o responsável por desenvolver o conceito de “monomania homicida”, que seria a patologia que ele não conseguia diagnosticar, mas tinha certeza existir em homens aparentemente sãos que cometiam homicídios violentos.

Geralmente, o monomaníaco é improdutivo, não consegue interagir bem com ninguém, sua paranoia prende toda a sua atenção e desfoca o restante. Como uma verdadeira prisão, nada mais importa para Raskólnikov além de confirmar sua teoria e mostrar que está certo a si mesmo.

FILOSOFIA POLÍTICA

NIILISMO

Faminto e delirante, em posse de novas ideias niilistas estranhas. Raskólnikov é a personificação de uma ideologia que atravessou a Europa e invadiu à Rússia, e que na verdade foi precursora filosófica da Revolução Russa. Assim, os irrelevantes deveriam ser eliminados com o propósito de reorganizar as estruturas do mundo.

Sendo um niilista, na maior parte do romance Raskólnikov não demonstra sentimentalismo, ele também desconsidera totalmente as convenções sociais que vão contra as interações rígidas que ele deseja com o mundo. O niilismo foi uma posição filosófica desenvolvida na Rússia nas décadas de 1850 e 1860, conhecida por “negar mais”.

O niilismo propõe a indiferença, a “ausência de sentido” atrelado ao conceito de “Super-Homem” surgidos a partir da Divindade Cristã e seus princípios. Desse modo, o homem se desprende dos valores morais e regras estabelecidas por essas doutrinas, se tornando um homem livre para realizar suas próprias escolhas. Para o filósofo Nietzsche, o cristianismo nos afasta do que é importante em nossa vida, nos enfraquece e impõe limites, não faz sentido seguir a religião, pois Deus está morto. A morte de Deus é também a morte de todos os valores ditos elevados que herdamos.

UTILITARISMO

Ligado ao niilismo está o utilitarismo, a ideia de que as decisões morais devem ser tomadas  sob o princípio do máximo bem possível para o máximo de pessoas possíveis. Segundo essa teoria filosófica, uma ação só pode ser considerada moralmente correta se as suas consequências promoverem o bem-estar coletivo. Caso o resultado da ação seja negativo para a maioria, esta é classificada como condenável moralmente. Raskólnikov justifica o assassinato da idosa por razões utilitárias, alegando que um “piolho” foi removido da sociedade.

Ao confessar ser o assassino à Sônia, uma mulher que se prostitui somente pela condição de miséria, ela sente compaixão por Raskólnikov, não se afasta dele, ajudando-o em seus piores momentos. No final da trama, Raskólnikov descobre o amor e joga fora seu niilismo. Através desta ação, o romance condena o niilismo como vazio.

Raskólnikov era ateu, seu castigo foi a loucura, a detenção e o trabalho forçado. O sofrimento dele foi tão forte que passou até a acreditar em Deus. Sônia lhe mostrou o caminho do arrependimento e do Evangelho. A obra é também uma grande reflexão existencial sobre como o ser humano se relaciona com as questões divinas.

ISBN: 978-8573266467
Páginas: 592
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: 34

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