Totalitarismo Comunista Na Revolução Dos Bichos, De George Orwell

Quando adolescente, meu pai passou seu livro para mim, aconselhando-me a leitura, como uma adolescente, logo questionei sua capa dos anos 70, nela havia um porco segurando um drink com o título de “A Revolução dos Bichos”, então pensei que só poderia ser uma viagem muito louca, alguma aventura, algo distante da realidade. Mal sabia que era uma obra-prima e uma mistura de fábula e sátira política à Revolução Russa (1917-1928), mal imaginava o verdadeiro sentido daquela história.

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Guardas Vermelhos organizados pelos bolcheviques para defender seus objetivos na Revolução Russa de 1917 e na Guerra Civil Russa contra os Guardas Brancas.

GEORGE ORWELL

George Orwell, na juventude serviu às forças imperiais da Birmânia (colônia da Inglaterra) e horrorizado com os métodos brutais do colonialismo inglês, passou então à lutar contra esse tipo de opressão. Atuando como combatente na Guerra Civil Espanhola, ele conheceu de perto o exército de Stalin, que posteriormente serviu de inspiração para “A Revolução Dos Bichos”. Ao tornar-se um ativista político, ele passou uma borracha no seu passado, mudou seu nome de batismo (Eric Arthur Blair), renunciou à sua origem burguesa, à fortuna, e se uniu à classe trabalhadora. Autor também de “1984”, George Orwell atacou o totalitarismo em suas obras literárias e criticou os autores de sua época que assumiam posições revolucionárias na teoria, mas na prática tinham um estilo de vida burguês.

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George Orwell (canto superior direito) com a guarda nacional britânica na Segunda Guerra Mundial.
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George Orwell

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

“A Revolução Dos Bichos” (Animal Farm) é uma fábula distópica que retrata a opressão e o totalitarismo do regime soviético de Stalin, feito de mentiras, traições e terror. Escrito e publicado durante a Segunda Guerra Mundial, a obra-prima de George Orwell possui forte caráter questionador, por isso foi rejeitada por muitas editoras até conseguir sua publicação.

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Horses, Cattle, Pigs and Chickens in a Farmyard (J. F. Herring) 

RESUMO DO LIVRO

De início na chamada Granja do Solar, especialmente no celeiro, diversas reuniões eram comandadas pelo Major (o porco ancião) e após a sua morte, posteriormente, por três porcos, Napoleão, Bola-de-Neve e Garganta, eles estavam muito insatisfeitos assim como o restante dos bichos, naquela vida curta, miserável, trabalhosa, sendo explorados dia após dia pelo fazendeiro Jones até o momento que não tinham mais serventia, estavam fracos e doentes, sendo então descartados quando mais necessitavam de ajuda. Em busca da liberdade, os bichos se unirão contra o seu inimigo, o Homem. A partir daí, deveria ser seguido o principio básico do sistema de pensamento chamado Animalismo, “quatro pernas bom, duas pernas ruim”.

(…) O que distingue o Homem é a mão, o instrumento com que perpetra toda a sua maldade. 

Existiam também sete mandamentos que norteariam o Animalismo:

l. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

O Homem é apresentado como um ser cheio de vícios, egoísta, egocêntrico e mentiroso que faz de tudo e manipula todos para obter o que deseja com o esforço alheio, ou seja, é um mal a ser combatido. Todos os animais na ficção do escritor inglês possuem traços humanos por ser uma fábula e uma crítica política ao mundo real. O animalismo representa a política de Stalin, os sete mandamentos ficarão só na teoria e serão usados apenas para os porcos se beneficiarem, por isso distorcerão o que foi escrito e o restante dos bichos ficarão calados como submissos, isto é, a lei é adulterada para prevalecer os interesses dos mais fortes no escalão da hierarquia. 

Nas noites, enquanto o fazendeiro Jones dormia, os bichos se reuniam no celeiro para tratar de vários assuntos de interesse coletivo, tudo era levado à assembleia para votação como a idade de aposentadoria para cada classe de animal e a aula de alfabetização para todos (apenas os porcos eram alfabetizados). Durante um desses encontros secretos, os bichos se rebelaram após o fazendeiro endividado e alcoolizado esquecer de alimentá-los, a fome foi o estopim, a revolução foi colocada em prática instigada pelo sentimento de injustiça e trabalho árduo, os humanos foram expulsos da fazenda. Agora a Granja do Solar chamava-se Granja dos Bichos.

Guerra é guerra. Ser humano bom é ser humano morto.

À principio, a revolução era uma promessa de liberdade e igualdade, vida digna para os animais, porém a situação na granja piorou ainda mais, agora com os porcos no comando, a manipulação de informações, ameaça e chantagens eram corriqueiras, a fim de manter seus subordinados sob controle, trabalhando penosamente.  

Todas as reuniões no celeiro eram encerradas com o hino dos Bichos da Inglaterra, essa era uma maneira de introduzi-los na política do Animalismo como um ritual. O hino também servia de identificação e qualquer bicho das redondezas que fosse pego pelo seu dono cantando era chicoteado, entretanto nada intimidava mais que os porcos, agora os animais morreriam pela Granja dos Bichos, se fosse necessário. 

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Pintura de J. F. Herring

Com o fazendeiro Jones fora da liderança, o porco Bola-de-Neve ateou fogo nas fitas usadas para enfeitar as crinas e caudas dos cavalos em dias de feira. Esses enfeites eram símbolos da domesticação dos cavalos e consequente retirada da liberdade, porém a novidade não agradou nem um pouco a égua Mimosa ao ver sua vaidade perdida. Após o porco queimar as fitas, ele amarrou outras invisíveis em forma de repressão. 

O comportamento dos bichos refletem características de cidadãos que constituem nossa sociedade e participam da política. Por exemplo, o corvo Moisés domesticado defendia seu dono e espalhava mentiras aos animais; os cavalos não questionavam nada e somente repetiam os discursos dos porcos; e a égua Mimosa que fazia corpo mole, mal trabalhava e só se preocupava em ganhar seu torrão de açúcar. O animal mais sábio e equilibrado parecia ser o mais idoso, o burro Benjamim, permaneceu invicto, não acreditava que a vida dos bichos havia melhorado, pois ainda sentia o cansaço, a fome e decepção, essa era a lei imutável da vida.

Os porcos não trabalhavam propriamente, apenas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos outros. Eles afirmavam que, como eram donos de conhecimentos maiores e foram os precursores da revolução, era natural que assumissem a liderança e tivessem direito aos melhores alimentos e as mesmas regalias dos homens. Analfabetos, os animais eram facilmente manipulados com os falsos mandamentos e também eram amedrontados com as chicotadas que passaram a receber dos porcos.

Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros.

Para otimizar a produção e o fornecimento de energia elétrica na granja, Bola-de-Neve propôs a construção de um moinho, o projeto avançou, no entanto gerou altos desentendimentos na cúpula do grupo. Por fim, durante uma reunião no celeiro, Bola-de-Neve acabou sendo expulso por Napoleão.

O porco Napoleão passou a treinar os cães do fazendeiro Jones para matar seu camarada Bola-de-Neve, devido à disputa de poder entre os porcos que possuíam opiniões contrárias, começou então uma perseguição política. Napoleão lia as ordens da semana num áspero estilo militar e deixou seu recado, o antigo camarada era uma má influência ao Animalismo, bravura apenas não bastava, o importante era haver obediência, lealdade e disciplina férrea na Granja dos Bichos. Submissos ao Napoleão, os animais repetiam frases como “Trabalharei ainda mais” ou “Napoleão tem sempre razão”. O porco passou a perseguir e matar quem o contraria-se.

Ambicioso, Napoleão decidiu fazer negócios com as granjas vizinhas, obrigando assim que os animais aumentassem muito a produção e achou por bem negociar os produtos da granja com os homens, entre eles Frederick, que acabou por dar um golpe em Napoleão. A desavença transformou-se num conflito real com direito a invasão de propriedade e morte de muitos animais durante a briga.

Devido às suas relações comerciais com os homens, o porco Napoleão estreitou os laços com quem tanto odiava e colocou em prática métodos que facilitavam a produção, o controle de gastos com a ração e com os horários de trabalho. Cada vez mais escravizados foram ficando os animais, e Napoleão foi ganhando outras características humanas, tornando-se tão corrupto quanto Jones, o antigo dono da granja. 

(…) já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

A trajetória enternecedora do cavalo Sansão é o retrato da população que trabalha até morrer. Na esperança de ter o restante da vida para descansar e aproveitar, o peso do trabalho ao longo dos anos e da idade avançada afetam sua saúde, sem serventia mais para a granja, passando fome e dor, o fim de vida do cavalo mais trabalhador foi o mais covarde, levado ao matadouro, não pôde nem se recuperar dos estragos de tanto esforço que executou na reconstrução do moinho.

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The Grey Horse (J. F. Herring)

IDEOLOGIA COMUNISTA

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Discurso de Lenin, influenciado pela teoria marxista, foi o líder da Revolução de Outubro, levando os bolcheviques ao poder na Rússia de 1917

De modo geral, o comunismo pode ser considerado como a etapa final da implantação e evolução de um sistema socialista. Teoriza-se que ele seria posto no momento em que o Estado sofresse sua extinção. Dessa forma, emergiria uma sociedade na qual todas as riquezas seriam divididas de forma igualitária entre todos os que contribuíram, de alguma maneira, com sua força de trabalho. Sem desigualdades, não haveria mais problemas sociais como a violência e miséria.

Além disso, os meios de produção (fábricas, fazendas, minas e etc) seriam públicos, mas sem pertencer ao Estado. Pela teoria marxista que caracteriza o comunismo, para alcançar uma sociedade igualitária, seria necessário desafiar as elites dominantes, dona dos meios de produção e das riquezas. Com a abolição do capitalismo, o trabalho perderia seu aspecto negativo de mercadoria, e as pessoas trabalhariam livremente, com prazer. Não haveria mais uma classe opressora e uma reprimida. Assim, seria possível o fim do próprio Estado.

REVOLUÇÃO RUSSA

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O massacre do Domingo Sangrento em São Petersburgo foi o estopim da Revolução Russa.

Depois desse resumão, podemos associar a imagem dos porcos com importantes figuras políticas que marcaram a história mundial. O porco Major, Napoleão e Bola-de-Neve poderiam representar, respectivamente, Karl Max, Stalin e Trotsky. Cada um de seu modo, foi responsável e contribuiu para despertar a Revolução Russa através de seus ideais, competências, iniciativas e posição de poder que possuíam.

KARL MARX: PERSONAGEM MAJOR

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Karl Marx desenvolveu a ideia de “trabalho alienado” que seria a separação dos seres humanos de sua verdadeira natureza e de seu potencial para satisfação, essa alienação era fruto do capitalismo, por isso proclamou que uma revolução internacional contra o capitalismo era inevitável. Ao defender o comunismo, Marx acreditava que reconectaria o homem a si mesmo como um ser social e não mais como uma força de trabalho explorada para enriquecer a burguesia. Todavia, na prática, a sua ideologia comunista foi usada para justificar o totalitarismo e a opressão em muitos países e épocas diferentes. 

Karl Marx se tornou reconhecido ao transmitir suas crenças socialistas por textos revolucionários baseados na economia e filosofia. Sua ideologia comunista influenciou a Revolução Russa. Na história de George Orwell, inicialmente, a revolução dos bichos foi estimulada por Major, o porco mais velho e respeitado pelos animais devido à sua sabedoria (inspirado em Karl Marx), ele se preocupou de verdade com os animais, revoltado com as injustiças, antes de morrer, liderou a luta pela liberdade e a declaração de guerra contra os homens.

O porco Major morreu antes de ver a tão sonhada revolução dos bichos, mas seus objetivos foram colocados em prática por seus seguidores ao se organizarem e tomarem posse da propriedade do senhor Jones. Karl Marx também não chegou a ver nenhuma transformação radical na sociedade em que vivia, porém serviu de inspiração para o surgimento de diversos movimentos políticos, mesmo após o seu falecimento.

STALIN: PERSONAGEM NAPOLEÃO 

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Para Stalin, os fazendeiros ricos (kulaks) faziam parte de uma classe exploradora que controlavam os demais porque tinham o controle da produção de alimentos, resistiam à coletivização e eram portadores do capitalismo. Ele defendia o extermínio dos fazendeiros, queria privá-los da fonte de sua existência e assim, milhões de kulaks morreram de fome, foram assassinatos ou deportados.

George Orwell interpretou a atuação política de Stalin como autoritária e uma subida no poder que se corrompe assim que alcança o objetivo da revolução popular. Os princípios da revolução foram traídos, o político que almejava a liberdade e igualdade no passado, revelou-se uma personalidade violenta e se igualou ao que tanto criticava e havia prometido combater. Como aconteceu com Napoleão após a Revolução dos Bichos, ele passou a governar somente pelos interesses de sua própria espécie. Cheio de privilégios, o porco inferiorizava os demais animais e ainda negociou com o inimigo de duas pernas, o homem.

Acompanhamos durante a leitura como Napoleão se corrompe gradativamente, ele começa furtando leite, tendo acesso exclusivo às maças e acaba se mudando para a casa do senhor Jones, que havia sido decidido mantê-la como um museu pela assembleia dos bichos. Porém ninguém ousava enfrentar Napoleão. Tal como Stalin, discordâncias se tornavam sinônimo de conspiração contra o regime soviético, o que era resolvido por ele com assassinato de integrantes do próprio partido, execuções em massa e alterações de registros históricos.

TROTSKY: PERSONAGEM BOLA-DE-NEVE

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Trotsky (1879 – 1940) registro pouco tempo antes do seu falecimento.

Trotsky era do partido comunista de Stalin, foi expulso e marcado para morrer pelo seu camarada, após divergências políticas. Ele era contra a doutrina stalinista do “socialismo num só país”, Trotsky defendia a “revolução permanente”, isto é, revoluções socialistas poderiam ocorrer em sociedades que não tinham conseguido o capitalismo avançado.

O porco Bola-de-Neve foi um dos primeiros líderes da Revolução dos Bichos. Na História da Revolução Russa, Trotsky era o favorito de Lenin para sucedê-lo no poder. Lenin estava doente e considerava Stalin um mau elemento dentro do seu Partido Bolchevique, mas a sua incapacidade física foi a oportunidade que Stalin encontrou para através de um ato criminoso, desrespeitar a vontade de Lenin, tirando Trotsky da disputa pela liderança, acusando-o de ser um traidor e expulsá-lo do partido comunista.

Devido ao autoritarismo e egoísmo de Napoleão representando Stalin, ele consegue incriminar e expulsar o porco Bola-de-Neve, que acabou sofrendo com o exílio da mesma forma como aconteceu com Trotsky, ele se tornou o inimigo da Revolução Russa para o povo manipulado por Stalin, mesmo povo que representa os animais da granja que temiam Napoleão, devido ao líder agir de maneira corrupta e viver escoltado pelos cães de Jones que foram treinados para matar os opositores.  

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Soldados após a Revolução Russa de Fevereiro de 1917 (Foto: Nestori Jaakkola)

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Além do cães ameaçadores de Napoleão, havia o porco Garganta, seu fiel amigo, ele possuía o dom da oratória e convencia todos da granja a favor de Napoleão. Garganta é uma representação da propaganda feita pelo governo stalinista, sempre de modo persuasivo para manter a ordem.

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CONCLUSÃO

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Dia da Constituição (Isaak Brodsky, 1930)

George Orwell ao escrever “A Revolução dos Bichos”, desejou fazer uma denúncia a ditadura instaurada depois que Stalin subiu ao poder. O ano da publicação de sua obra-prima foi 1945, ou seja, era o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo ainda estava sob clima de tensão, separado em dois blocos: o capitalista e o socialista. E mesmo sendo socialista, George Orwell soube produzir com seu livro a reflexão acerca da igualdade entre os homens, que seria impossível, levando em consideração que todo homem deseja liderar e obter consequente vantagem em sua posição de poder, todos somos corrompíveis. 

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), formou-se na Europa, sob liderança da União Soviética, um bloco de nações chamadas de comunistas, esses países tornaram-se regimes autoritários que promoviam perseguições contra divergentes, o cenário derrubou a sociedade comunista, justa e harmônica idealizada por Karl Marx. Esse é um dos motivos responsáveis pela opinião de muitos especialistas em política ao afirmarem que nunca existiu um país comunista de fato.

Através da sua escrita, George Orwell criticou e colocou em forma de fábula, o culto à personalidade, a censura, os jogos de poder e a manipularão das massas. “A Revolução dos Bichos” permanece sendo uma obra atual e uma leitura indispensável para a sociedade discutir sobre política, principalmente, aos mais jovens. Foi como meu pai me orientou na adolescência, quando tudo era novo e desconhecido para mim.

***

E você, acredita que o comunismo é a solução e deve ser implementado? Já leu a Revolução dos Bichos? Comente e curta se deseja ver mais obras de George Orwell por aqui. Abraços!

 

 

 

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