Holocausto Brasileiro

I.S.B.N: 978-85-8130-157-0

Páginas: 256

Autora : Daniela Arbex

Editora: Geração Editorial

Sinopse: Durante décadas, milhares de pacientes foram internados à força, sem diagnóstico de doença mental, num enorme hospício na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ali foram torturados, violentados e mortos sem que ninguém se importasse com seu destino. Eram apenas epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres confinadas pelos maridos, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento.

Ninguém ouvia seus gritos. Jornalistas famosos, nos anos 60 e 70, fizeram reportagens denunciando os maus tratos. Nenhum deles — como faz agora Daniela Arbex — conseguiu contar a história completa. O que se praticou no Hospício de Barbacena foi um genocídio, com 60 mil mortes. Um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população.

 

Criado em 1903, o antigo Hospital Colônia viveu uma história de extermínio entre 1930 e 1980, o maior hospício do Brasil era localizado na cidade mineira de Barbacena. O que havia naquele espaço não eram pessoas, e sim corpos mudos, porém diante das torturas que foram feitas contra os chamados doidos, eles que denunciaram as loucuras dos “normais”.

Encaminhados de trem, os pacientes eram levados à força para o que seria o maior pesadelo da vida deles. Cercados por muros altos, ninguém se interessava em saber o que ocorria dentro daquele hospício, assim eram esquecidos por suas famílias e pela sociedade.

Como qualquer instituição que visa a lógica da coerção e punição, ao chegarem no Colônia, os chamados “doidos” tinham suas cabeças raspadas, suas roupas eram retiradas, perdiam seus nomes e eram rebatizados pelos funcionários. Começava agora, uma “nova vida” e “identidade” jamais querida.

Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental! A maioria, eram epiléticos, homossexuais, prostitutas, gente que causava incômodo ou se rebelava, deficientes, meninas grávidas, esposas levadas por seus maridos para que eles ficassem com suas amantes, filhas de fazendeiros que perdiam a virgindade antes do casamento, pessoas sem documentos, alguns eram apenas tímidos e aproximadamente trinta e três eram crianças.

Holocausto Brasileiro - Melkberg - psicologia - hospital colonia - Barbacena - basaglia - daniela arbex - livro - resenha

Os pacientes morriam de fome, frio, doença e maus-tratos, principalmente morriam de eletrochoque (dados sem prescrição e somente como uma forma de intimidação), comiam ratos, bebiam urina ou esgoto, dormiam sobre capins lotados de formigas, pois o trapo que era dado não era suficiente para aguentar o frio de Minas, na tentativa de se esquentarem eles se amontoavam uns nos outros e os que estavam embaixo acabavam morrendo sufocados.

Mais de 60 mil pessoas morreram, devido às péssimas condições desumanas que recebiam, denominadas como formas de tratamento terapêutico.

Qual seria o motivo para tanta morte? A morte dava lucro, mais de 1.800 cadáveres foram vendidos para 17 faculdades de medicina do Brasil entre 1969 e 1980. Quando havia excesso de cadáveres, os funcionários queimavam os corpos com ácido na frente dos pacientes, para que pudessem aproveitar e vender as ossadas. Nada era perdido, exceto a vida.

Além de tudo, os pacientes que se mantiam ainda vivos, eram obrigados a prestar serviços à prefeitura e também eram explorados pelos diretores do hospital que levavam eles para construir e fazer consertos em seus imóveis. Eles trabalhavam como mão de obra escrava para o crescimento econômico de Barbacena.

No início da década de 70, com o fechamento do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil de Oliveira, dezenas de crianças foram transferidas para o Hospital Colônia. As crianças tinham o mesmo tratamento dado aos adultos, inclusive todos os maus-tratos, acorrentadas, recendendo eletrochoques, camisa de força e até mesmo foi realizada a lobotomia, a fim de conter a agressividade e mobilizá-las ainda mais, diante daquela situação de abandono.

Pouquíssimas crianças conseguiram resistir às brutalidades, o caso que mais me emocionou foi o de Roberto, um menino com hidrocefalia que foi abandonado pelos pais naquele hospital psiquiátrico.

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O livro conta muitos casos tristes, não vou expor todos detalhes. É impressionante como somente de ler, causa revolta e tristeza de perceber como o ser humano pode ser tão cruel e desumano. Também, é difícil acreditar que esse fato ocorreu por 5 décadas como se fosse algo comum, permitido pela mentalidade das pessoas naquela época, e ainda continua sendo omitido na história do Brasil.

No final da década de 70, o psiquiatra Ronaldo Simões Coelho denunciou o Hospital Colônia e reivindicou sua extinção.

O que acontece no Colônia é desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer que seja a sua forma.

 

Napoleão Xavier é autor do registro fotográfico feito em 1979 sobre as crianças do Colônia. Para ele, ao fotografar as crianças, elas não se mexiam e ficavam em posição de defesa com os punhos fechados e pareciam fetos recolhidos naquele sofrimento. Um dos meninos lhe perguntou se ele queria ser seu pai na esperança de sair daquele pesadelo, e começou a chorar.

O fotógrafo mencionou que a maioria dos internados eram negros, mostrando mais um sinal de discriminação que ocorria no hospital.

Fotografei ser humano sem condição humana, houve uma desumanização institucionalizada.

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Luiz Alfredo, fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, foi o primeiro a revelar as atrocidades do hospital. Para ele, as seis horas que permaneceu no Colônia pareciam um pesadelo, a ficha só caiu no dia seguinte, pois no dia era só profissionalismo. Segundo o fotógrafo, em 20 anos de profissão nada se comparou ao que presenciou naquele hospício.

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Referência mundial na busca pela humanização dos modelos de atendimento e pioneiro na luta pela extinção dos manicômios, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o Colônia em 1979. Numa coletiva de imprensa, declarou:

Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta.

Basaglia trouxe mudanças no modelo assistencial, o que só ocorreu nos anos 80, quando a reforma psiquiátrica ganhou força. Hoje, restam menos de 200 sobreviventes que vivem em Residências Terapêuticas.

Parte dos corpos das pessoas que perderam suas vidas no campo de concentração chamado Colônia, hoje descansam das atrocidades no Cemitério da paz.

O Hospital Colônia, seguia um modelo de limpeza e segregação social. Assim, como o nazismo, essa herança histórica de maus-tratos e exclusão de pessoas diferentes aos padrões impostos como um ideal de normalidade e comportamento, nos passa a vergonha de ser humano e ser brasileiro. Quem eram os loucos mediante essa crueldade praticada por 5 décadas autorizada pelo Governo e por uma população omissa? Onde estavam naquela época as informações transmitidas pela mídia jornalística sobre essa tragédia humana?

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Espantada com a falta de conhecimento de toda sua geração, Daniela Arbex em 2011 iniciou uma longa busca pelas vítimas e sobreviventes da tragédia gerando através de suas reportagens, os fatos documentados no livro e documentário “Holocausto Brasileiro”.

Quem quiser ver o documentário Holocausto Brasileiro, clique aqui! 

Segundo o cineasta Helvécio Ratton do primeiro documentário sobre o Hospital Colônia chamado “Em nome da Razão” produzido em 1979 , ele quebrou o silêncio que era a norma daquela instituição, ou seja, o contrato seria a sociedade ser conivente e silenciada para que aquele terror continuasse isolado. Em nome da Razão está disponibilizado aqui!

 

Nota: 3/5

2 comentários sobre “Holocausto Brasileiro

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