Inspiração, o novo nome da Inveja

A palavra inspiração está cada vez mais na boca do povo, a frequência do uso começou a ocorrer nas mídias sociais e a partir daí, vem perdendo seu bom sentido, sua qualidade. Quem são os novos inspiradores? São jovens que influenciam pessoas a seguirem um determinado estilo de vida e consumirem as mesmas marcas que eles indicam, são os influenciadores digitais, essa é a nova profissão. Os influencers são pessoas pagas para servirem como modelos de inspiração aos frequentadores das redes sociais.

O que na teoria parece algo muito inofensivo, na realidade, vem deixando muitas pessoas adoentadas psicologicamente. Tudo começa apenas com uma admiração ao seguirem os influenciadores, depois se torna um comportamento constante de vigiar e buscar ter o mesmo modelo de vida dos “inspiradores”, que é inatingível para maioria da população de um país com alto índice de pobreza e crise econômica, como o Brasil.

Morram de inveja! Essa conhecida frase é um tanto primitiva, desde a nossa evolução, os macacos já sentiam inveja. Durante a época primitiva, a inveja até que funcionava bem, servindo como um combustível para conseguir mais comida e assim, sobreviver melhor que o outro primata, era como uma competição que ajudou no desenvolvimento da espécie. Porém, após toda a evolução, nós humanos, somos bem complexos, e a inveja não funciona igual para todos.

Em determinadas pessoas ou mesmo ambientes, como o empresarial, a inveja pode se transformar em um benefício, por exemplo, ao cobiçar o colega de trabalho e seu cargo, o invejoso é incentivado a produzir mais, ou seja, a inveja se torna um estímulo e motivação para ele. Já para o invejado, ser um alvo de cobiça pode ser bom para afastá-lo de seus próprios maus pensamentos, a insegurança, o sentimento de inferioridade ou a própria inveja. Por outro lado, existem pessoas que temem a ideia de serem invejadas, ficando muito desconfortáveis ao conquistarem coisas, sob o olhar do invejo.

A admiração se inicia pela sensação do vazio, isso significa que admiramos o que não possuímos ou o que está faltando em nós, a partir disso, a inveja pode aparecer. O invejoso ao querer ser ou ter o que o outro é/tem, ele se sente injustiçado, por isso cobiça e torce pelo fracasso alheio. A desigualdade que emerge na inveja, faz o invejoso sentir prazer ao ver de perto o insucesso de seu alvo. Em estágios avançados, a inveja se torna patológica evoluindo para uma depressão, ou até mesmo, a prática de um ato criminoso.

Portanto, procurando um meio mais politicamente correto de se expressar, a inspiração está dando lugar para a antiga inveja. O que é considerado religiosamente, um pecado bíblico que antes fazia todos “torcerem seus narizes” para o invejoso, hoje, invejosos e invejados disputam entre si, para ganharem mais likes, compartilhamentos e comentários em seus perfis na rede e como produto, recebem regalias, viagens e bens materiais servidos como incentivo por serem modelo de inspiração e parceiros de empresas que também buscam o sucesso em cima dos seguidores dos digital influencers.

Desde os primatas até as redes sociais, a inveja nos habita, desse modo, use-a com moderação, pois ficar só cobiçando a vida alheia te estagna e você deixa de olhar para sua própria vida, ou seja, é uma forma de alienação. Enquanto a sua inspiração ganha progresso, você ganha retrocesso.

Partindo da comprovação de que a maioria dos usuários postam o melhor deles ou como eles gostariam que fossem, sabendo disso, por que se tornar uma vítima de uma manipulação virtual? Antes havia mais liberdade para usufruir a internet, agora tudo está virando uma questão de se encaixar no senso comum de felicidade plena que não existe.

Casos de depressão estão atingindo muitos visitantes das mídias sociais. Enxergando belas paisagens, belas moradias e relacionamentos que parecem perfeitos demais, o bruto contraste com a percepção de sua própria realidade acontece e com isso, um profundo descontentamento, sensação de solidão e frustração se instala, e também a ingratidão por tudo que possui e por sua vida que nesse momento perde a graça diante de toda essa perfeição, através de uma imagem fotográfica e surreal exibicionismo na net.

Vivam suas vidas, usem de parâmetro e se espelhem na realidade, mesmo que não seja animada e movimentada como a rede social, viva mesmo assim, pois só vivendo, você pode fazer a diferença! Olhar a vida dos outros passarem por um feed, não vai tornar a sua melhor, não se iluda, busque a vida que combine mais contigo e não com o mais aceitável em termos de popularidade.

 

 

Ilustração de Manjit Thapp – Pinterest 

 

 

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