Privação Materna e Jovens Delinquentes

Desde a primeira infância (do nascimento até os seis anos de vida), o nosso ambiente familiar é o primeiro espaço de convivência que reconhecemos. Independente da estrutura da família, é nesse contexto que crescemos e desenvolvemos nossas habilidades físicas, mentais, sociais e emocionais, todas são necessárias para a formação da personalidade e mais tarde, o reflexo de como iremos nos relacionar com outras pessoas, em outros espaços.

Um dos principais responsáveis pelo estudo da importância do afeto e vínculo mãe-bebê, foram Bowlby e Winnicott. Para eles, os três primeiros anos de vida de um bebê e sua relação afetiva com o cuidador é determinante para o desenvolvimentos psíquico do indivíduo. Portanto, a privação do amor e atenção materna na primeira infância, acarreta prejuízo no desenvolvimento físico e retardo intelectual, social e emocional no futuro da criança, devido aos danos à sua saúde mental.

O amor materno na primeira infância é tão importante para saúde mental quanto vitaminas e proteínas para saúde física. John Bowlby 

A criança precisa sentir que é um objeto de orgulho e satisfação para a mãe e ambos tenham um relacionamento caloroso e prazeroso. A mãe ideal, segundo Winnicott é a mãe suficientemente boa, aquela que satisfaz as necessidades do bebê, que transmite segurança ao segurá-lo, que oferece sustentação e mostra através do olhar e afeto que é uma extensão dele, como se fossem um só, ela constrói o sentimento de pertencimento ao bebê.

O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mae: A sua expressão, o seu olhar, a sua voz.[…] É como se o bebê pensasse: Olho e sou visto, logo, existo! Winnicott

Uma mãe negligente, passa ao filho a ideia de que ela não o conhece de verdade, não sabe o que ele gosta, pensa ou sente. Essa falta de demonstração de interesse que caracteriza a negligência, é a desatenção, ausência, isto é, a privação maternal.

O afastamento dessa mãe cuidadora, se chama “privação materna”. Existe a “privação parcial” que é a mais comum, quando a mãe delega seus cuidados a uma figura substituta, como um parente ou uma babá. Já a “privação quase total”, ocorre quando a criança fica institucionalizada, sendo difícil ter uma figura que lhe proporcione segurança, ou seja, uma figura substituta ao cuidado materno. Geralmente essa privação total acontece devido à morte da mãe ou pelo abandono do próprio filho. Quando o filho é abandonado, ele vive total desamparo, forte necessidade de ser amado, angústia, grande sentimento de vingança e depressão.

Em casos extremos, essas crianças totalmente desamparadas podem apresentar psicopatia insensível, isto é, ela se torna incapaz de se afeiçoar as outras pessoas, não conseguem estabelecer relacionamentos interpessoais significativos, sendo mais propensas também a delinquência juvenil e comportamentos antissociais, pois possuem ausência de remorso, uma vez que são incapazes de sentir culpa.

Privação materna e jovens delinquentes - Blog de psicologia Melkberg - primeira infancia - privação materna - Winnicott - mãe - criança - bebê

Outros problemas causados pela negligência do cuidado materno seriam: o uso de drogas, prática de furtos ou roubos, comportamento agressivo, transtorno afetivo, a prática de relação sexuais promíscuas e masoquismo. Logo, a privação materna precoce, traz a incapacidade dessas crianças/adolescentes se adaptarem à sociedade.

Não sendo o bastante, a privação materna impede o desenvolvimento da autoestima, que é o principal antídoto ao aparecimento do comportamento antissocial. Uma criança negligenciada geralmente é insegura, pois o afeto alimenta o nosso ego, e no caso dela, é a total ausência dele.

[…] seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais capazes de exercitar melhor seus talentos quando seguros de que, atrás de si, há uma ou mais pessoas em quem cofiam e que lhe darão ajuda em necessidade. Bowlby

Uma família proporciona vínculo inseguro aos filhos, quando os pais fazem constantes ameaçam de abandono; por vezes ajudam os filhos, porém outras se mostram inacessíveis; exercem alto controle, utilizando a coerção como forma de educação; desenvolvem nas crianças um padrão de apego inseguro e evitativo. Quando chegada a adolescência, a auto imagem dos filhos reflete a angústia, confusão e insatisfação afetiva que tiveram na relação com seus cuidadores durante a infância. Esses adolescentes passam a evitar contato com outras pessoas, pois costumam julgar que ninguém é capaz de se envolver emocionalmente com eles, ou mesmo ajudá-los.

Em meio a tantas faltas, esses adolescentes se prendem ao “ter” e não ao “ser“. Agora, eles buscam o que não tiveram, fora de casa, procuram por estabilidade e não se sentem pertencidos a nenhuma instituição. Os que cometem infração ou delito, fazem isso na tentativa de chamar atenção e o reconhecimento daqueles que não tiveram (os cuidadores), forçando sua inserção no meio social, mesmo que seja, infringindo a lei.

A conduta antissocial é um grito de desespero para o sujeito que reivindica do social aquilo que lhe foi prometido. Winnicott

Apesar da adolescência ser uma fase conturbada, em que busca uma nova identidade e marcada pelos conflitos no meio social ou familiar, com grande instabilidade e ambivalência de sentimentos, além da vivência de vários lutos ou perdas, como a transformação corporal e perda da identidade infantil. Todas essas mudanças são necessárias para a formação de sua personalidade.

Acredito que as vítimas da privação materna são invisíveis para a sociedade, e também existem muitas barreiras para continuarem suas vidas, como conseguir um emprego ou construir uma família. Portanto, deveria haver uma atenção maior do Estado, para acolher essas pessoas excluídas por suas famílias.

Utilizar um espaço de convivência como uma ONG ou mesmo a escola tem o poder de amenizar essa falta no passado, através da educação, dando o suporte que não tiveram e instruindo, para que aprendam a satisfazer suas vontades sem usar a violência ou vandalismo, e tornando assim, mais capazes de fazerem suas próprias escolhas com segurança.

SUGESTÃO DE FILME – OS INCOMPREENDIDOS

Leia a resenha do filme, clicando nesse post!

 

 

Imagens – Pinterest

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