Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser

Sempre ouvi pessoas comentando que consideravam o livro Cem anos de solidão de Gabriel Gárcia Márquez como o favorito delas, fiquei curiosa para saber se também acharia o mesmo, então resolvi ler e já posso declarar que minha experiência com esse livro foi especial. Irei resumir os pontos que mais me chamaram atenção nos Cem anos de solidão da família Buendía e farei uma relação com a Teoria da escolha de William Glasser. Sem mais delongas, vamos à resenha e análise psicológica dos personagens ;)

Bom, pra quem não sabe, Cem anos de solidão se encaixa no gênero de literatura fantástica, os elementos fantásticos aqui se articulam com personagens que carregam características bem humanas como o rancor, remorso, paixão, vingança, egoísmo e ciúme. Além disso, todos compartilham a solidão, que permeava a mansão dos Buendía, a primeira família a habitar a aldeia de Macondo que já era envolvida pela solidão, antes de sua existência. Depois que o patriarca José Arcandio Buendía nomeou e fundou Macondo, ciganos, índios e estrangeiros passaram a morar lá, ensinando seus conhecimentos dando cores e descobertas a nova cidade.

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.

Essa estória se passa em uma época tão remota, que as coisas ainda nem tinham sido nomeadas, por exemplo, a descoberta do gelo nessa jornada fantástica. Uma curiosidade é que a criação de Macondo foi inspirada na cidade natal de Gabriel Gárcia Márquez chamada Aracataca. Em Cem anos de solidão iremos acompanhar a saga da família Buendía, desde a ascensão e queda, assim como a cidade de Macondo.

(…) recordassem sempre que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera. 

Basicamente nesses cem anos, veremos as sete gerações da família Buendía. Os nomes dos personagens se repetem ao longo do nascimento dos novos membros, essa é a tradição dos Buendía. Confesso que fiquei com receio de me perder na leitura por essa característica, mas não foi o que aconteceu, aconselho apenas que não façam pausas muito longas, tentem ler todos os dias. Caso precisem se localizar, existe uma árvore genealógica contida no começo da estória. A leitura não é difícil, ao contrário, é bem prazerosa.

No começo são muito bem criados, obedientes e responsáveis e parecem incapazes de matar uma mosca, mas assim que aparece a barba se lançam à perdição. 

(fala de Úrsula sobre seus filhos)

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

Todos nomes masculinos irão se repetir, são eles: Aureliano e José Arcádio. Esses nomes dão pistas sobre a fisionomia e a personalidade dos personagens, porque os Aurelianos costumam ser quietos, introspectivos, magros e estudiosos, e os Josés Arcádios serão mais extrovertidos, desbravadores, festeiros e fortes. Os personagens que mais gostei, foram: o cigano Melquíades, o personagem mais misterioso sábio e importante para entender a estória; a matriarca Úrsula Iguarán, a figura mais forte e defensora da família; e o coronel Aureliano Buendía, aquele que fez 32 rebeliões e perdeu todas, ele sofria com o poder, a incerteza e as paranóias da guerra.

Aureliano (…) não entendia como se chegava ao extremo de fazer uma guerra por coisas que não podiam ser tocadas com as mãos.

Desse modo, iremos acompanhar todos os personagens, a solidão deles depois de acontecimentos significativos até a espera e o momento da morte. A narrativa é maravilhosa, Gabo (Gabriel Gárcia Márquez) conseguiu utilizar estórias comuns que podem ser repetidas por gerações, misturando com os mais variados elementos fantásticos. A solidão é experimentada quando acontecem guerras civis, disputas de terras, prostituição, relacionamentos acabados e presos ainda por aparências, traição, rejeição, tentativa de suicídio, decepção de um grande amor, o envelhecimento e a morte. Na estória, vemos que vários personagens se enterraram em vida, por exemplo, Rebeca, Fernanda e Amaranta, elas preferiram agarrar a solidão diante de todas dificuldades da vida, até esperar pela morte.

(…) ninguém soube ao certo se falava do que sentia ou do que lembrava. Pouco a pouco foi se reduzindo, se tornando um feto, mumificando-se em vida, a tal ponto que em seus últimos meses era uma passa de ameixa perdida dentro da camisola (…) Ficava imóvel vários dias (…) Parecia uma anciã recém-nascida. 

(o momento que a resistência de Úrsula a envelhecer, acabou-se)

Não só elementos fantásticos são utilizados como também referências bíblicas, por exemplo, a estória inventada por Fernanda contando sobre o dia em que achou Aureliano Babilônia, ainda recém-nascido abandonado dentro de um cestinho, assim como a imagem de Moisés. Gabo também aproveitou seu trabalho de escrita para mencionar a política e momentos históricos da Colômbia como o Massacre das bananeiras ocorrido em Aracataca, sua cidade natal, lá havia uma empresa multinacional que explorava as plantações de banana, os trabalhadores insatisfeitos com os abusos e más condições de trabalho denunciaram e fizeram uma greve, eles foram chamados pelos donos estrangeiros dessa empresa, mas era uma emboscada, os trabalhadores acharam que fariam um acordo e foram mortos covardemente, os corpos sumiram e a história foi abafada.

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

Os persongens e a teoria da escolha de William Glasser

Todos os Buendía sofreram de depressão e enfrentaram uma perda avassaladora. Na psicologia existe a Teoria da escolha de William Glasser, essa teoria revela que existem cinco necessidades importantes que todos nós buscamos alcançar, elas são: sobrevivência, amor e pertencimento, poder, liberdade e diversão. Quando alguma dessas necessidades são conquistadas ou não podem provocar o prazer ou a dor. Como podemos satisfazer essas necessidades somente com os relacionamentos humanos, então somos por natureza seres sociais. Sendo seres sociais:

1 A ajuda de outra pessoa nos faz bem na luta pela sobrevivência. A amizade do patriarca José Arcádio Buendía com o cigano Melquíades, ajudou muito para que o fundador de Macondo, seguisse com as ideias premonitórias e as invenções que compartilhava com Melquíades na oficina e laboratório de alquimia, facilitando vários empreendimentos também, José Arcádio Bunedía acabou sofrendo muito depois da morte de seu amigo e a solidão ficou personificada neles com as assombrações do cigano e do patriarca vagando pela mansão. Outro exemplo dessa necessidade, está em Úrsula Iguarán que buscava proteger e amparar seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos, por exemplo, ela foi a única que apoio seu o filho Aureliano para que se casasse com Remédios, a filha do inimigo de José Arcádio Buendía, o dom Apolinar Moscote.

2 Para sentir amor e pertencimento, precisamos ter um bom relacionamento. Praticamente todos os homens da família Buendía, traiam suas esposas ou mesmo assumiam as duas relações amorosas ao mesmo tempo. Os dois casais mais apaixonados e que ambos tinham respeito recíproco, na minha perspetiva, foram: Amaranta Úrsula com Aureliano Babilônia e Rebeca (filha adotiva dos Buendía) com José Arcádio. Esses casais tinham o amor genuíno como característica marcante. Eles tinham relação de parentesco, mas não foram os únicos, desde a primeira geração isso ocorria (José Arcádio e Úrsula Iguarán eram primos), levando até a crença de que nasceriam com rabo de porco aqueles que fossem filho de parentes, na tentativa de acabar com os incestos.

Aquela aproximação entre dois solitários do mesmo sangue estava muito longe da amizade, mas permitiu os dois suportar melhor a insondável solidão que ao mesmo tempo os separava e os unia. 

(solidão compartilhada)

3 Para ter a mínima sensação de poder, precisamos ter certeza que o outro ouça o que dizemos. Úrsula e Fernanda colocavam seu poder em prática na mansão dos Buendía e ambas disputavam por isso, mas Úrsula na maioria das vezes fazia isso com a melhor das intenções, diferente de Fernanda que pensava apenas em suas próprias vontades. Úrsula dava conselhos a todo o tempo aos seus familiares na tentativa possibilitar um bom e feliz futuro na vida deles. Seus tataranetos, Amaranta Úrsula e José Arcádio seguiram o catolicismo à pedido de Úrsula, os dois foram estudar no exterior, Amaranta Úrsula em Bruxelas num convento de freiras e José Arcádio em Roma com intuito de terminar o seminário e se tornar papa no futuro.

4 Se quisermos sermos livres, temos que nos desvincular do controle exercido pelo outro. Fernada tentava controlar todos da mansão dos Bunedía, principalmente seus filhos Meme, Amaranta Úrsula e Arcádio, após seu marido José Arcádio Segundo abandoná-la. Como Úrsula não gostava nem um pouco disso e também disputava certo poder com ela, a matrirca acabou ajudando os netos (Amaranta Úrsula e Arcádio) a se livrarem disso, porém Meme a que mais parecia livre e diferente da personalidade de Fernanda, não teve sorte e acabou tendo um destino cruel nas mãos de sua mãe. Já Rebeca que estava sofrendo pela desaprovação de Úrsula após se casar com o irmão José Arcádio, também sendo objeto de inveja de Amaranta que a odiava, então para se livrar de tantos sentimentos ruins, ela se afastou de todos para ser livre e amar quem quisesse, mesmo podendo sofrer com a solidão no futuro.

5 Mesmo que posamos nos divertir sozinho, é muito mais provável e fácil que isso aconteça junto com outras pessoas. O mais introvertido e esquivo de todos, Aureliano Babilônia (filho de Meme), amava estar cercado por seus estudos na oficina, porém ele vivia recluso por ser rejeitado e com o passar dos anos, a solidão do quarto que antes não o incomodava, começou a lhe fazer mal, ele sentia falta de amor, era como se a antiga realidade não fizesse mais sentido. Decidido, Aureliano Babilônia conheceu Macondo passeando pelas ruas, fez amizades e depois disso acontecimentos bons em sua vida, jamais imaginados, se tornaram realidade.

Não ouviu sua voz em muitos meses, não apenas porque José Arcádio não lhe dirigia a palavra, mas porque ele não tinha vontade de que isso acontecesse. 

(sobre a introspecção e o silêncio de Aureliano Babilônia)

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

Quando temos dificuldade com os nossos relacionamentos interpessoais mais próximos, por exemplo, brigas que geram rompimento e ressentimento, ficamos tristes, e quando a tristeza é extrema pode levar à sintomas associados a enfermidades mentais. Portanto, segundo a teoria da escolha, a depressão é geralmente causada por problemas de relacionamentos pessoais (e não sinal de anomalias bioquímicas no cérebro), sendo tratada com a reparação desses relacionamentos, afastando o uso de drogas psiquiátricas.

Melhorar os nossos relacionamentos é melhorar a nossa saúde mental.

William Glasser

A teoria da escolha também é uma psicologia de autocontrole. William Glasser explicou a necessidade humana básica de poder, a qual procuramos nos satisfazer controlando os outros, porém o único comportamento e pensamento que devemos controlar é o nosso. Quando tentamos controlar as pessoas, trazemos para si a infelicidade, e não respeitamos o próximo. Desse modo, a teoria da escolha tenta combater também essa tendência humana de poder, além melhorar nossos relacionamentos, proporcionando a felicidade.

Naquela Macondo esquecida até pelos pássaros, onde a poeira e o calor tinham se tornado tão tenazes que respirar dava muito trabalho, reclusos pela solidão e pelo amor e pela solidão do amor numa casa onde era quase impossível dormir por causa do estrondo das formigas-ruivas, Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos seres felizes, e o mais felizes sobre a terra. 

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

OPINIÃO FINAL

As relações entre os membros da família Buendía são muito interessantes, a rivalidade mortal entre as irmãs Amaranta e Rebeca daria um estudo psicológico, ambas são figuras marcantes e se protegem usando mecanismos inconscientes como a regressão em Rebeca ao chupar o dedo e permanecer em posição fetal e Amaranta deslocando (deslocamento) a imagem de Pietro Cotes que a rejeitou no passado (o ex da irmã Rebeca) para o coronel Gerineldo Márquez (novo pretendente), ela também deslocou a imagem da irmã mais bonita, a Rebeca em Remédios, a Bela, as duas imagens também disputavam o mesmos homens com Amaranta. Tanto Rebeca como Amaranta se auto puniam (volta contra o eu), uma comia terra até vomitar a outra queimou sua mão e se espetava com agulhas, elas faziam isso na tentativa de minimizar a agressividade e o sofrimento que sentiam na hora da raiva, agressividade e remorso.

O amor é uma peste.

Gabo ganhou o prêmio Nobel de literatura com sua obra-prima Cem anos de solidão. Durante o processo de escrita, ele adquiriu dívidas para produzir o livro, que demorou mais do que havia previsto (seis meses), mas no fim deu tudo certo, através dos Cem anos de solidão que o sucesso de Gabo só fez alavancar, as editoras da Colômbia, seu país natal, não aceitavam publicar o livro, no México que ele conseguiu, mas foi em Buenos Aires que ganhou o reconhecimento, se tornando famoso mundialmente, após os hermanos da Argentina se apaixonarem por Macondo e pelos Buendía.

A incerteza do futuro fez com que virassem o coração rumo ao passado. 

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

Eu queria ler algum livro famoso da literatura colombiana e não tinha como não ser Cem anos de solidão de Gabo. Por ser de um país tão próximo ao nosso, mesmo que eu não tenha me identificado logo de cara com os membros da família Buendía, algo me fez amar esse livro. Latinos como nós, deve de existir alguma identificação forte, só não consegui saber qual exatamente me aproximou mais dos Buendía, acho que a maioria dos personagens tem uma característica identificável em mim e talvez também seja o medo da solidão que habita em cada um de nós, até mesmos personagens que não concordava com as atitudes, me fez sofrer com a solidão deles. Cem anos de solidão será um livro que guardarei com carinho, o mistério que ele deixou em mim vai render uma releitura em algum momento de minha vida, isso eu tenho certeza.

(…) sua alma cristalizou-se com a nostalgia dos sonhos perdidos. Sentiu-se tão velha, tão acabada, tão distante das melhores horas de sua vida, que sentiu saudades inclusive das que recordava como as piores, e só então descobriu como faziam falta as lufadas de orégano da varanda, e o vapor dos roseirais ao entardecer, e até a natureza bestial dos forasteiros. (…) A necessidade de sentir-se triste ia se transformando num vício conforme os anos a devastavam. Humanizou-se na solidão.

Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser - blog de psicologia Melkberg - cem anos de solidão - livro - solidão - Gabriel García Márquez - Buendía - Úrsula - Amaranta - Gabo - Aureliano - José Arcádio - personagens - família - teoria da escolha - William Glasser - teoria da escolha de William Glasser - psicologia

I.S.B.N: 9788501078896

Editora: Record

Autor: Gabriel Gárcia Márquez

Páginas: 448

Nota: 5/5 – nessa edição especial, a diagramação está ótima, as folhas são amareladas e a capa é feita de um material que desconhecia, leve e rígida, excelente. 

Se você gostou dessa resenha e análise psicológica dos personagens, não esqueça de curtir, comentar e compartilhar com mais fãs de Cem anos de solidão ;)

Um comentário sobre “Livro Cem anos de solidão de Gabo, personagens e a Teoria da escolha de William Glasser

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s