Os Incompreendidos

Clássico do cinema francês, “Os Incompreendidos” marcou a carreira do diretor François Truffaut e do ator Jean-Pierre Léaud. Lançado no ano de 1959, o longa-metragem narra o cotidiano conturbado de um garoto francês chamado Antoine Doinel, que está em transição da infância para adolescência. Insatisfeito com sua vida, ele se arrisca para mudá-la, mas acaba tendo que lidar com consequências muito duras para sua idade.

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Dentro de casa, Doinel sofre todos os tipos de violência: física, verbal e psicológica, além das constantes ameaças de abandono. Seus pais, Gilberte e Julien misturam os problemas da relação do casal com o filho, usando-o como uma forma de um ofender ao outro, sendo assim, o filho seria uma imagem de degradação do cônjuge.

Doinel passa a se sentir cada vez mais inferior aos insultos feitos pelos pais e por isso, deseja desde muito cedo a sua independência, como se qualquer lugar fosse preferível a continuar vivendo naquele ambiente doméstico. Junto ao desejo de independência, o garoto passa a reproduzir gestos de adultos, que eram dos pais, como o hábito de fumar.

Chamada de adultização precoce, esse hábito que crianças e adolescentes têm de imitar o comportamento dos pais. Isso acontece, devido às conversas entre adultos na presença dos filhos ou o incentivo que os pais dão, para que o filho aja como um adulto. Embora, possam sejam ainda muito novos para entender o real significado de muitas coisas que escutam, essas crianças/adolescentes gravam tudo muito bem em sua memória, despertando curiosidade e interesse, que acabam reproduzindo em algum momento tais gestos, atitudes e falas ditas por pessoas adultas.

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Doinel fumando enquanto lê a história de Balzac

Como se não bastasse o mal uso da imagem de autoridade exercida pelos pais, na escola, o professor faz o mesmo, várias cenas mostram a extrema violência, impaciência e punição praticadas dentro da sala de aula. Para o filósofo Michel Foucault, as escolas seriam umas das instituição que utilizam o poder e a disciplina (instrumento de controle e dominação) para domesticar ou suprimir comportamentos divergentes, transformando os alunos em “corpos dóceis”. Seguindo essa lógica, a escola aproveita o tempo prolongado em que o aluno está preso nela, para vigiá-lo, moldar suas condutas e formatar seu pensamento de acordo com as ideias da instituição, através dos exames, da censura, exclusão e punição. 

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acendendo uma vela para Balzac

Em uma das cenas, Doinel se empenha em escrever uma boa redação, pois receberia uma recompensa de sua mãe, caso tirasse a melhor nota. Fascinado, após conhecer a história de Honoré de Balzac, o garoto escreve uma bonita redação, que não é aceita pelo professor, por julgar estar muito excelente para capacidade do aluno. Assim, ele usa sua autoridade para acusar o aluno de plágio e ainda dá uma punição. Doinel fica revoltado por ter sido desacreditado e humilhado na frente de seus colegas.

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Acredito que infelizmente essa realidade dentro das escolas, não deve ser muito rara, pois eu mesma, já passei por algo idêntico a isso. Novamente o mal uso da autoridade é exercido pelos adultos como forma de correção, reprimindo, modelando crianças e julgando não estarem ao nível esperado, baixando a auto estima das crianças e adolescentes, podendo refletir quando chegada a vida adulta. 

Antigamente, as crianças eram pensadas como se fossem mini adultos. No filme, os pais não davam atenção ao filho, passavam o dia todo fora de casa e deixavam Doinel circulando pelas ruas de Paris sozinho. O garoto era responsável por pagar as contas da casa, encarregado de comprar a comida e jogar o lixo fora. Talvez por esses motivos que a sua infância era indesejada, esperando que passasse logo, pois não vivia plenamente como uma criança, e sim como um adulto inferiorizado.

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Doinel furtando uma garrafa de leite

Já fora de casa, o garoto pretende furtar um máquina de escrever e conseguir um bom dinheiro para sobreviver sozinho. Por ser uma boa pessoa (o que ninguém enxergava), ele acaba se arrependendo, resolve devolver o objeto, mas é pego no flagra. Logo após isso, percebe-se que seus pais estavam apenas preocupados em condená-lo por suas atitudes e bem distantes de zelarem por ele. 

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René e Doinel

Para não dormir na rua, ele conta com a ajuda de seu melhor amigo René que o esconde dentro de sua casa, mas durante o dia, ele aprende as regras da rua, perdendo sua inocência cercado por pessoas mal intencionadas que tentam sabotar o garoto.

Os pais são maus exemplos e mentem na cara do filho para outras pessoas, dizendo que jamais bateram em Doinel, além disso, quando o garoto esteve nas ruas, ele descobre que a mãe tem um amante. Não existe diálogo entre os pais e o filho. Depois de tantos conflitos, o garoto é preso e mandado para um “centro de educação vigiada para menores delinquentes”, o que não se enquadrava no caso real. Agora Doinel, iria se misturar não mais aos pais violentos, mas aos jovens violentos e pessoas totalmente estranhas a ele, que também o violentariam como a forma de educação recebida nesse meio.

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coleta de digitais

O pedido dos pais é atendido, o filho é levado para bem longe, seria uma maneira de se livrar do próprio fracasso da educação que eles não sabiam dar. Aliás, os pais que precisavam ser corrigidos, pois a educação faltava neles próprios. Quem paga o preço é o filho, os pais continuam vivendo sua vida regada de hipocrisia e insultos, porém ficavam apenas entre eles, pois o “culpado” já não morava mais lá. 

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o momento da foto

O ambiente familiar/a instituição que tinha o poder de corromper a inocência do garoto. Já o caráter do indivíduo começa a ser formado na infância através das experiências com o meio externo, a partir disso, o indivíduo se comporta e se relaciona com as pessoas da melhor maneira, pela qual, se adaptou ao longo do tempo para se proteger e defender. Ninguém constrói caráter sozinho, a relação com os pais tem o papel fundamental na formação do caráter. 

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preso em um cela

Os pais não conheciam o próprio filho e nem quiseram retomar o relacionamento com ele, simplesmente o abandonaram para não aceitar que tinham culpa na situação que foi formada. Foi muito mais difícil reconhecer a culpa, e muito mais fácil culpar um outro alguém (filho).

Obs. Os Incompreendidos é uma autobiografia do diretor Truffaut, Doinel seria o seu alter ego. Truffaut ficou órfão e mesmo diante das dificuldades que enfrentou, não foi para o caminha da marginalidade e se tornou um dos melhores diretores do cinema francês.

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Já uniformizado no centro de educação vigiada

Dentro de centro para menores delinquentes, um diálogo entre o filho e a mãe conta que o garoto foi criado por uma babá e sua avó, e somente após o falecimento dela que Doinel foi morar com a mãe. Sua mãe ficou grávida durante a adolescência e desejava o aborto, mas não fez e por isso acabou se casando. Todos os fatos são expostos ao filho com a maior frieza e sem cuidado nenhum com as palavras.

Os pais sempre ignoraram a existência de Doinel, este que nunca se sentiu amado e visto, tendo a consciência de que veio ao mundo, apenas pela vontade de sua avó que se responsabilizou em cuidá-lo, enquanto estivesse viva.  

A mãe se achava uma vítima o tempo inteiro e não merecedora de ter um filho delinquente, como ela descrevia e também confessava que não podia voltar com Doinel para casa, pois a vizinhança saberia de tudo e não queria ser julgada pelos vizinhos, mais uma vez mostrando tamanha hipocrisia. Ao final, ela passa o recado que o pai dele teria dado, dizendo que não se importava mais com o filho.

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Cansado de permanecer numa espécie de prisão, só recebendo castigos e longe de seu melhor amigo René. Tendo apenas a solidão como companhia, Doinel tenta fugir de mais uma realidade e ir finalmente ao encontro do seu maior sonho que era ver o mar. Um cenário final sem ninguém ao redor, refletia a vida daquele recém adolescente que passou por tantos conflitos sozinho e agora tem a liberdade da natureza para extravasar e recomeçar uma nova caminhada.

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Para aqueles que adoram o charme do antigo cinema em preto e branco, recomendo muito “Os Incompreendidos”, e não se engane, apesar de haver muitas crianças fofas todas juntas num só longa, essa história está longe das fofurices de uma infância. O personagem é cativante e nos faz torcer por ele. Pena que pessoas tão jovens sofrem realidades tão duras, mas o importante é nunca desistir de seus sonhos e de sua vida, sempre criar forças e coragem para refazê-la, diante de qualquer circunstância.

Se você ficou curioso pra assistir esse filme ou já assistiu, dê o seu like e sua opinião, vou adorar ler os comentários. Bjs! 

 

 

Imagens – Pinterest 

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