O Papel Social na Maternidade Precoce

Esse post será esclarecedor e surpreendente depois das constatações feitas por pesquisas realizadas com adolescentes grávidas. Estamos acostumados a ouvir que as adolescentes engravidam de forma não planejada e sofrem consequências devido à falta de informação sobre os métodos contraceptivos. Ok? Porém, a realidade dessas adolescentes mostra outra coisa, ao escutar a fala delas, a antiga ideia parece algo equivocado que vem sendo repetido há anos pela literatura tradicional.

No Brasil, 1 a cada 5 crianças é filha de mãe adolescente (fonte DATASUS). Considerando esse dado estatístico, precisamos desde já refletir mais sobre a ocorrência da gravidez na adolescência por interferência de outros fatores latentes e não desconsiderar a consequência da maternidade precoce, pois essa é inteiramente verdadeira.

Primeiramente, vamos nos atentar as seguintes afirmações comprovadas pelas pesquisas de campo: a maioria das grávidas adolescentes pertecem às classes populares, elas tem acesso à informação, através de cursos de educação sexual existentes em escolas e hospitais, além dos diversos meios de informação de fácil acesso nos tempos atuais. Elas sabem como devem fazer para não engravidar, mas o que surpreende é justamente isso, pois elas QUEREM ENGRAVIDAR. Muitas adolescentes PLANEJAM a gravidez.

POR QUE ELAS QUE SÃO TÃO NOVAS, DESEJAM A MATERNIDADE? Diferente das adolescente de classe média que enxergam com rejeição a gravidez nessa fase, pois representa a ruptura de seus sonhos e projetos futuros, a gravidez na classe popular é enxergada como a oportunidade de realizar seus sonhos. Isso acontece devido ao ideal de construir uma realidade próxima a classe média, ou seja, ter uma casa e morar com o marido ou namorado e o filho, porém esse sonho está distante de sua situação econômica. Aí aparecem as consequências…

Morando com o filho na casa do seus pais, o abandono dos estudos geralmente ocorre, cerca de 76% dessas jovens grávidas deixam de frequentar a escola (fonte IPEA), mesmo assim, elas não perdem a esperança de conseguir um emprego e melhorar o orçamento familiar. Ter um filho antes de chegar à idade adulta não é algo tão espantoso para elas, pois é comum conhecerem outras garotas nessa situação e além disso, para a minoria delas que continuam os estudos, essa realidade é muito mais bem aceita na escola pública do que na particular.

Estar grávida faz dessas jovens a possibilidade de se tornar mulher e ser mãe é um forte papel social que elas desejam desde novas exercer. Pensar em ter um filho é vivido por elas como uma uma oportunidade para imaginar um futuro melhor e assim, realizar seus sonhos, mas a realidade é diferente como elas idealizam. Sem estudo e sem emprego, essas adolescentes se casam muito novas e colocam no filho muitas expectativas.

Segundo Freud, a mulher transfere todas as suas expectativas ao filho que é uma extensão do corpo da mãe e também do seu narcisismo, o desejo de ter um filho equivale a restauração do seu próprio narcisismo infantil abandonado. Essas jovens mães desejam ao filho tudo o que não tiveram, e o filho funciona como um poder de reparação narcísica para elas.

O fato é que a consequência do abandono dos estudos só agrava a sua situação econômica e aumenta as barreiras para conseguir ser independente financeiramente, exercer uma profissão e estabelecer outros papéis sociais.

Ser feminina para elas é ser mãe, elas se sentem mulheres dessa forma. O processo de engravidar na adolescência é algo muito mais complexo e profundo que não deveria ter como alvo somente a promoção de novos recursos de informação, porque não é por esse caminho que as taxas de partos durante essa fase serão diminuídas.

Há muitos outros fatores envolvidos na escolha de ser uma mãe adolescente, desde o biológico até o cultural, psicológico e social. Não devemos ignorar a fala dessas jovens e tudo se resumir a uma só coisa, visto que o aumento dos casos de maternidade precoce não pode continuar sendo mais um dado nas estatísticas, e sim um reflexo mais subjetivo do que estamos acostumados a pensar superficialmente, e não mais apenas um problema e uma realidade indesejada no Brasil que deve ser combatida.

O filho muitas vezes aparece como um presente das filhas para suas mães como uma promessa de mudanças satisfatórias para a evolução da família. Uma vez que, as mudanças não se tornam tão positivas assim, o governo deveria considerar a importância do aumento da demanda de psicólogos em hospitais, escolas e comunidade para acompanhar todos os conflitos psíquicos e desenvolvimentos dessas adolescentes junto à família, perante ao processo complexo e psicossocial da gravidez na adolescência.

 

Referência – Gravidez na adolescência: um novo olhar, Dadoorian, 2003. 

Imagem – Pinterest 

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