As Invernas

Sinopse: Dolores e Saladina, irmãs apelidadas “As Invernas”, voltam à sua aldeia galega depois de um penoso exílio na Inglaterra, trazendo consigo lembranças que todos ali queriam esquecer. Uma linda, outra feia e desdentada, vivem uma relação típica de irmãs. De seu cotidiano comum, entremeado de flashbacks, vai se descobrindo os segredos macabros e grotescos que permeiam Tierra de Chá.

É do paradoxo do estranho e cotidiano, do cômico e dramático e do terno e perverso que se descobre a riqueza deste romance, seguindo pegadas de narradores cuja obra nunca acabamos de decifrar, porque, ao revelar um sentido, abre outros, e sobretudo abre a vida, sempre vertiginosa e desproporcionada.

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Saladina e Dolores eram as irmãs inseparáveis chamadas pelos moradores de Terra Chã como as “Invernas”. A estória das Invernas é cercada de mistérios descritos através de uma linguagem poética que traz leveza e encanto pela pequena aldeia Terra Chã localizada na Galícia.

Tudo se incia no período da Guerra Civil Espanhola (1936), a partir disso, o avô das Invernas, que era um homem estudioso, curandeiro e comunista é perseguido e desaparece durante a ditadura. Porém, antes dele sumir, os morados da aldeia de Terra Chã assinaram um contrato de compra e venda para ele, que consistia na venda dos seus cérebros quando falecidos, para que dom Reinaldo (avô das Invernas) pudesse estudar as diferenças entre o cérebro da mulher e do homem. Quando estourou a guerra, as irmãs Dolores e Saladina foram enviadas para Inglaterra, e lá permanceram por muitos anos, voltando em 1950 para a Galícia. 

O retorno das Invernas foi indesejado pelos moradores de Terra Chã, havia uma revolta entre todos e o passado agora seria remexido. Segundo o sábio dom Reinaldo, todos de Terra Chã eram loucos, e sendo uma pequena aldeia, tudo que acontecia era comunicado, existia muitas fofocas e expeculações, principalmente sobre o motivo da volta das Invernas.

As Invernas eram muito diferentes uma da outra, apenas duas coisas eram semelhantes e as unia: a fascinação por Hollywood e o segredo que elas carregavam. Saladina era uma mulher muito rígida, mal humorada, feia e carregava muito sofrimento em seu semblante, sua vida era uma rotina, não se permitia ser feliz e impedia a felicidade de sua irmã Dolores que queria ser livre, sonhava em ser atriz e todos se apaixonavam por sua beleza. O relacionamento das irmãs era abusivo, Dolores era mais nova e não gostava da vida que levava ao lado da irmã mais velha (Saladina), porém por ser muito submissa e paciente, Saladina levantava sempre a voz e Dolores se calava e a obedecia. 

Quanto menos falam, melhor; as palavras enredam, confundem, enganam, e não precisam delas para sentir. Estão cômodas, e o mero fato de estar juntas, de estar sós, de compartilhar a situação, uma sopa, o anis, as faz sentir-se bem. Não esperam mais e não desejam mais.

Tudo as surpreende: uma galinha põe um ovo ou uma planta germina entre os grumos da terra, e a certeza de que Deus está ali as domina.

A vida parece um milagre.

Mas não é Deus que faz os milagres; é a repetição.

De tarde, enquanto costuram com a Singer, ouvem a novela de rádio, que quase sempre as faz chorar.

Depois fecham a porta da casa e ficam sozinhas, debaixo do cobertor, no calor da solidão escolhida. 

Havia muito controle e inveja por parte de Saladina. Dolores tenta se livrar da relação doentia com a irmã, se casando com Tomás, um pescador de polvos que vivia em Ribeira, mas essa ilusão e tentativa de fugir da irmã, dá muito errado. Dolores se encontra num casamento infeliz, numa relação também abusiva e além de ser subjugada, ela é violentada por Tomás, pedindo socorro para Saladina e então, voltando a morar com ela.

Nem tudo está perdido para Dolores, em determinado momento, aparece a oportunidade perfeita para ela se tornar atriz, as incrições para o teste do filme “Os Amores de Pandora” estavam abertas, mas para isso, ela terá que enfrentar sua irmã novamente. Será que vai dar certo? 

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O livro mostra conflitos emocionais, relacionamentos disfuncionais, padrões de comportamento e aspectos sociais e da cultura local. Os personagens do vilarejo são muito interessantes e peculiares, o cenário nos remete aquela ideia de estilo de vida campestre e de cidade pequena, onde todos se conhecem. A leitura flui com facilidade, exitem delicadas ilustrações que acompanham o texto e despertam ainda mais a curiosidade por Terra Chã. A simplicidade dos fatos carregada de situações encontradas na sociedade, nos aproxima e nos envolve com a estória. Outra característica que prende a leitura é o segredo que as Invernas guardam, algo terrível aconteceu, elas são cúmplices disso e vai marcar a vida delas para sempre.

Muitas coisas neste mundo são indescritíveis; mas o maravilhoso da mente humana é a forma como ela se adapta quando ocorre o pior.

Além de seu interresse por cinema, tinham desenvolvido uma inclinação especial pelos detalhes escabrosos de doenças, mulheres violentadas, assassinatos, crianças queimadas e demais patologias alheias.

A violência explícita e implícita é vivenciada por dom Reinaldo e suas netas, as marcas no corpo e na mente deixam seus vestígios. O curandeiro Reinaldo, depois de ser torturado e interrogado na ditadura sofreu de ansiedade, medo e paranóia, não entendia o motivo de ter sido preso e passou a achar que todos o perseguiam, parou de comer e começou a fazer coisas estranhas, andar sem rumo e perder sua orientação espacial; Saladina sempre foi insultada e identificada como a irmã feia e banguela; Dolores era assediada todas as vezes que saia na rua através dos assobios constantes, foi violentada por seu marido e rotulada como burra.

Saladina sofria de depressão, ela não almejava nada e se via presa num corpo que sempre era comparado ao da sua irmã. Ela sentia uma tristeza profunda depois da bruta separação e desaparecimento do seu avô Reinaldo, suportava o preconceito e insultos que recebia e não conseguia iniciar nenhuma relação amorosa. Mas, algo vai encher o coração de Saladina de esperanças, após a vidente Violeta dizer que alguém irá se apaixonar e achar ela atraente, porém esse alguém também escondia um segredo que podia acabar com tudo.

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E o povo de Terra Chã, será que eles irão acolher as Invernas?

– Já é hora de vocês se juntarem aos da aldeia.

– Está nos chamando de ovelhas? 

– Vocês estão muito sozinhas aqui. 

– Estaríamos mais sozinhas sem a solidão.

– Somos todos ovelhas, ou acabamos por ser. A massa é boa, dá calor e reconforta.

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As ovelhas camuflam umas às outras

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I.S.B.N: 978-85-8419-047-8

Editora: Alaúde / Selo Tordesilhas

Autora: Cristina Sánchez-Andrade

Páginas: 280

Nota: 3/5

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